Zé Ricardo precisa evitar ser o Joel Santana da nova geração
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Zé Ricardo precisa evitar ser o Joel Santana da nova geração

O tempo leva tudo embora: dores, ciúmes, tristezas, alegrias, amores, amizades.  O que chamamos de tempo é o movimento de evolução das coisas. Do mesmo modo, é o mundo do futebol. Jogadores, treinadores, dirigentes, presidentes e até mesmo torcedores. A cada nova temporada, o surgimento de novas figuras pensantes – dentro e fora das quatro linhas, se torna essencial para o processo progressista do esporte.

No Brasil, depois de frequentes fiascos de medalhões e deslumbrar o surgimento de grandes e promissores treinadores na Europa, a tecla nova geração de técnicos começou a ser constantemente batida. Baseado nisso, eis que surge José Ricardo Mannarino após Muricy Ramalho deixar o Flamengo para tratar problemas de saúde. Inicialmente como interino, Zé começou sua carreira como técnico e cerca de dois meses depois, foi efetivado, após uma sequência de bons resultados. Com um título Carioca na bagagem, briga por título no Campeonato Brasileiro e fiasco na Libertadores, o então treinador do clube rubro-negro foi do céu ao inferno em meses e acabou demitido em 6 de agosto de 2017, após derrota por 2 a 0 para o Vitória dentro de casa.

Menos de um mês depois, foi contratado pelo Vasco e gerou um grande rebuliço, visto que ficou 432 dias no maior arquirrival e querendo ou não, ainda existia um certo sentimento (positivo ou negativo) da nação rubro-negra por ele. Surgiu o debate: Zé esqueceria o lado sentimental de sair de um projeto tão recente e priorizaria o lado profissional ao comandar um rival? Sim. O pulso firme e a vontade de se provar como treinador impulsionaram o ex-treinador do Flamengo a aceitar o desafio e definitivamente se consolidar no hall da nova geração.

Na Colina, Zé ficou até 2 de junho deste ano, depois de classificar o time para a Copa Libertadores de 2018 e ser vice-campeão Carioca. O técnico pediu demissão após derrota para o Botafogo, em casa, pela atual edição do Brasileiro. (Foto: André Durão/globoesporte)

Curiosamente, o terceiro clube da rasa carreira do treinador também será carioca: Botafogo (justamente o time que o fez pedir demissão no Vasco). Contudo, nada chama mais atenção do que em 800 dias como técnico, Zé já se aproxima de marcas de técnicos históricos do futebol, que treinaram os quatro grandes clubes do Rio de Janeiro. Vale ressaltar que antes de assumir uma nova equipe após se demitir, o ex-treinador vascaíno recusou o Fluminense e até mesmo o próprio Botafogo, pois almejava e tinha sondagens do exterior. Entretanto, como acabou melando algumas negociações, decidiu voltar atrás e assumir o glorioso.

Em alguns casos profissionalmente falando, é benéfico dar uma pausa trabalhística e buscar novos conhecimentos – positivos ou não, nunca é de mais. A sabedoria é uma qualidade atribuída ao que tem um monte de conhecimento e distingue-se pela sua utilização racional e sensata. Não dá pra contar nos dedos a quantidade de bons profissionais que priorizaram o presente e sentiram o insucesso lá na frente. É claro que há casos de êxitos esportivos num curto espaço de tempo e que duram até hoje, mas não é segredo pra ninguém que são raríssimas exceções.

Os números já falam por si: 139 jogos, 70 vitórias, 38 empates e 31 derrotas. (Foto: Marcelo Theobald/Agência O Globo)

A questão em evidência não é sobre Zé Ricardo ser bom treinador ou não, muito menos contestar sua competência no âmbito profissional. Basta analisar os desempenhos das suas equipes e visualizar o potencial estrutural, tático e idôneo existente. Notório que como todo treinador, existam erros e acertos, ainda mais quando indica falta de experiência em alguns momentos. O maior entrave em debate é o rumo em que a carreira do promissor treinador pode se tornar. Partindo de inúmeros fracassos constatados da profissão, manter-se numa pequena área territorial de conhecimentos, mesmo que por menor tempo que seja, pode ser prejudicial no futuro.

Adentrando no ponto de vista de que, primeiramente domina-se uma região e a partir disso o profissional evolua capacitadamente, é conveniente acreditar na efetividade desse processo. No entanto, acho difícil (pra não dizer impossível) no mundo obscuro do futebol alguém realmente projetar sua carreira com esse pensamento. Não que eu duvide do Zé em realizar tal, muito pelo contrário, vindo dele tudo é possível. Mas, no atual panorama, desacredito.

Estudioso, apto, inteligente e principalmente capacitado, Zé Ricardo é visto como um treinador futuroso não é a toa. Ter times como Flamengo, Vasco e Botafogo apostando no seu know-how, além de receber sondagens de Santos, Corinthians, Fluminense e clubes do exterior em quase 2 anos e meio no ramo é pra poucos. Resta saber se o atual treinador do alvinegro da zona sul vai almejar atingir a mais alta prateleira do futebol brasileiro ou vai se contentar – isso se conseguir, em obter apenas conquistas importantes atuando no futebol carioca como Joel Santana alcançou.