Time certo no momento errado: a delicada situação de Paulinho na Alemanha
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Time certo no momento errado: a delicada situação de Paulinho na Alemanha

Em tempos de vendas precoces, principalmente quando envolve clubes brasileiros, as dificuldades de uma rápida adaptação na Europa se tornaram algo comum entre os jovens que são vendidos antes mesmo de completarem 18 anos. Paulinho, aos 18 anos, é um desses casos mais recentes. Há mais ou menos 7 meses, ele se tornou o vigésimo terceiro brasileiro há vestir a camisa do Bayer Leverkusen, englobando uma lista com Renato Augusto e Juan.

Contratado pelo clube alemão em julho do ano passado por 20 milhões de euros (na ocasião, R$ 85 milhões), o ex-jogador do Vasco fez, até o momento, 15 jogos e marcou um gol. Com 428 minutos em campo, na maioria dos jogos, ele começou como suplente e entrou na segunda etapa. Somente em quatro jogos começou como titular, sendo três na Liga Europa e um na Copa da Alemanha, ambas competições de menor peso comparadas a Bundesliga. Em 2019, por exemplo, ele participou de apenas três partidas oficiais (uma como titular e duas como reserva) e nem sequer saiu do banco em outros cinco confrontos.

Antes com Heiko Herrlich, agora com Peter Bosz: mudou-se treinador e a situação de Paulinho continua a mesma. Porém, nos últimos dias, veio à tona algumas especulações de problemas extracampo. Segundo o atual treinador da equipe, em determinada altura da temporada, ele notou uma certa falta de comprometimento por parte do jogador, especialmente quando chamado para entrar nos jogos faltando poucos minutos para o apito final.

Mesmo com a saída de Herrlich, ficou claro que o problema, em questão, não era o treinador. (Foto: Divulgação/Bayer 04)

Nos bastidores do Leverkusen, há também quem critique a postura de familiares e pessoas próximas a Paulinho, entendendo que o entorno tem gerado muita “euforia” em cima do jogador. Na verdade, era esperado uma espécie de senso crítico. Acaba que é um cenário com a mesma questão que envolve Neymar, onde o jogador é criticado por viver numa bolha rodeada apenas por amigos e familiares, sem ouvir — muitas das vezes — o outro lado da moeda. Não que isso seja necessário, mas ajuda.

De qualquer maneira, o que houve foi o seguinte: Paulinho saiu do Brasil com status de titularidade ou, pelo menos, para brigar por tal em qualquer clube da Europa. Ainda que tenha recebido propostas de outros clubes de maior reputação, o projeto apresentado pelo Bayer Leverkusen agradou ele e seu staff. E fez sentido. A Bundesliga é a principal liga para desenvolvimento de jovens e o Leverkusen, com um time repleto de jogadores com idade igual ou inferior a sub-23, é uma grande vitrine no continente europeu.

O que na teoria era complicado, na prática ficou ainda mais difícil. Todo mundo sabia que haveria uma forte concorrência pelo ataque da equipe alemã, muito por conta de ter as estrelas Bailey, Havertz e Brandt em ascendência. Entretanto, é provável que pelo menos um deles seja vendido na próxima janela de transferências. Isso abre espaço para um maior aproveitamento do atacante brasileiro, visto que os alemães ainda possuem esperanças na evolução dele como jogador.

Antes rivais de clube e parceiros de seleção, as comparações entre Paulinho e Vinícius Júnior eram inevitáveis. Hoje, a disparidade é enorme. (Foto: André Melo Andrade)

Então, o que aconteceu para Vinícius Júnior se tornar quase um titular absoluto no Real Madrid e Paulinho amargurar a reserva no Leverkusen? Bom, o ex-jogador do Flamengo encontrou um cenário muito mais positivo para alcançar suas ambições pessoais. Ainda que tenha ido sem a pretensão de, inicialmente, nem ser reserva da equipe principal, a promoção de Santiago Solari, ex-treinador do Real Madrid Castilla, ajudou (e como) a aceleração da rápida ascensão do camisa 28 merengue.

Já Paulinho, que saiu do Brasil com mais ambição em, pelo menos, lutar por uma vaga na titularidade do clube alemão, sequer consegue ter satisfatórios minutos em campo. Por mais que o Real Madrid tenha mais qualidade em seu elenco, Vinícius Júnior obteve mais espaço — além das suas boas atuações — devido ao tumultuado momento de reconstrução dos galáticos. Na direção contrária, o atual camisa 7 do Leverkusen sofre por concorrer com atacantes que jogam há bastante tempo juntos, possuindo um entrosamento significativo. Fora que a adaptação (principalmente idioma e clima) na Alemanha tende a ser muito mais difícil do que na Espanha.

Por fazer parte de uma geração recheada de nomes talentosos, a pressão por uma rápida adaptação é maior. No entanto, a paciência tem que ser maior ainda. A informação de que o Leverkusen buscará emprestar Paulinho no final da temporada não faz muito sentido, até por tê-lo como principal peça de reposição numa eventual e provável venda de um dos seus atacantes titulares.

Como mostra a imagem acima, a versatilidade do atacante brasileiro faz com que ele consiga ter uma sobrevida no elenco do time alemão. Ainda que não tenha bons números e tenha tido poucas oportunidades, é provável que na próxima temporada ele consiga se desenvolver mais. Pelas suas recentes declarações e como todo jogador profissional, é normal que fique insatisfeito com a falta de oportunidades. Ainda mais no seu caso, onde optou pelo Leverkusen justamente por acreditar que teria mais chances de jogar.

Time certo, liga ideal, momento errado. Por mais que não tenha aproveitado corretamente as raras oportunidades, o momento vivido pelos atacantes titulares do atual sétimo colocado da Bundesliga é fantástico e prejudica o brasileiro indiretamente. Sair da zona de conforto, se empenhar nos treinos, estudar a língua local, se preparar pros jogos e sempre amargar o banco de reservas. É difícil, mas faz parte do jogo. Se ainda almeja ter sucesso na atual conjuntura, é mais do que necessário ter paciência. Hoje, ela é mais importante do que uma passageira mudança de ares. E ele e o clube vão ter tempo de entender isso.