Quem é Giovanni Reyna, o jovem que quer seguir os mesmos passos de Christian Pulisic no Borussia Dortmund

A Alemanha se tornou o destino preferido de jovens norte-americanos em busca de desenvolverem suas carreiras profissionais, muito por conta de ser uma grande liga europeia que dá espaço suficiente para jovens talentos. Atualmente, Weston McKennie, Josh Sargent e Christian Pulisic encabeçam a vasta lista na Bundesliga. Com a ida de Shinji Kagawa para o Borussia Dortmund em 2010, a liga viveu uma explosão de japoneses adentrando na Alemanha. Agora, parece que os tempos são outros.

Aos 16 anos, Giovanni Reyna, filho do diretor esportivo do New York City e ex-craque norte-americano Claudio Reyna, se juntará a equipe sub-19 do Borussia Dortmund na próxima janela de transferências. Curiosamente a carreira de seu pai também começou no país germânico, onde foi para o Bayer Leverkusen em 1994. O jovem vai para a Alemanha buscando imitar o sucesso do conterrâneo Pulisic, que também se juntou a Dortmund com idade parecida em 2015. Gio, como é carinhosamente chamado, tem um passaporte português devido aos laços de sua avó paterna com o país, o que lhe permitiu evitar ter que esperar até seu 18º aniversário para se mudar para a Europa.

Nascido na Escócia durante a passagem do seu pai pelo Rangers FC, Reyna é considerado um dos melhores jogadores da geração norte-americana de jovens jogadores. Constantemente convocado para a seleção sub-15 e agora sub-17 dos Estados Unidos, ele liderou a equipe sub-18/sub-19 do New York City no campeonato da US Development Academy (a liga com nível mais alto do futebol juvenil nos EUA) e conquistou a Copa Generation Adidas em 2017, onde foi considerado o Bola de Ouro do torneio.

Apesar de algumas conversas terem acontecido no início do ano passado para que o jovem integrasse o elenco profissional do time de Nova Iorque, todos os caminhos o levavam a uma transferência para a Europa. Seu pai disse à Goal em dezembro de 2017 que a decisão final seria de seu filho. “Primeiro sou pai e vou apoiar o que ele quiser”.

Ainda que o nível da MLS tenha evoluído muito nos últimos anos, não chega nem perto do que é encontrado nos principais centros europeus de futebol. Mesmo assim, dá pra ter uma dimensão do talento de Gio Reyna quando era cogitado que ele subisse para a equipe principal do NYCFC com somente 15 anos. Embora ainda não tenha jogado profissionalmente, aos 14 anos de idade ele assinou um contrato de patrocínio com a Adidas, estrelando um comercial para a empresa alemã de vestuário.


Além da vida profissional, ele também teve que conviver com perda de um ente querido: em julho de 2012, seu irmão mais velho, Jack Reyna, faleceu aos 13 anos por conta de um tumor cerebral. Gio tinha 9 anos quando Jack faleceu. Na noite em que seu irmão morreu, sua mãe revelou seu desabafo: “Nunca vou ser um bom jogador de futebol agora, porque meu irmão mais velho me ensinou tudo”. A partir disso, ele começou a usar tudo isso como motivação profissional.

Na foto, os quatro irmãos da família Reyna (da esquerda para direita): Jack, Carolina, Joah-Mikel e Giovanni. (Foto: Divulgação/Sports Illustrated)

No dia 8 de abril de 2016, um dia antes do aniversário de 17 anos de Jack, Gio, então com 13 anos, estava jogando contra o Uruguai em sua primeira aparição internacional pela seleção americana sub-15. O jogo foi em Rosário, na Argentina, curiosamente o país natal de seu pai. Todos esses ingredientes acarretaram uma performance memorável do jogador. E não deu outra: um gol, uma assistência e uma partida dedicada — mesmo que indiretamente — ao seu falecido irmão.

De acordo com seu pai, em entrevista à Sports Illustrated, é difícil explicar o que se passou naquele dia. “É difícil para nós. Nós trazemos Jack para Gio. Nós falamos sobre Jack o tempo todo, mas não queremos empurrá-lo sobre ele. Às vezes dizemos: ‘Seu irmão está com você’. E naquele dia (no jogo em Rosário) não havia dúvidas. O dia seguinte foi a data de aniversário de Jack. O jogo todo do Gio foi absurdo, extremamente incrível”.


Mesmo muito jovem, Gio já atuou em várias posições. Meia-armador central por naturalidade, ele também pode jogar como um “falso 9” ou um centro-avante de mais movimentação, caindo pelos lados e buscando o jogo mais recuado. Por mais que ainda não tenha atuado pelas extremidades do campo, ele também poderá ser treinado naquela área mais futuramente, pois possui todas as características necessárias para ser um bom winger.

Posições onde é capaz de atuar

Reyna, apesar de ser aquele meia clássico, rende mais quando atua mais próximo do gol. E foi assim que ele atuou na Copa Generation Adidas há dois anos, jogando propriamente como um segundo atacante e com mais liberdade para se movimentar nas entrelinhas defensivas do adversário. Seu primeiro toque é altamente refinado, fazendo com que dificilmente erre algum passe de primeira ou até mesmo de costas para o gol — onde consegue atuar devido a sua altura e capacidade de se posicionar bem no ataque.

Com muita consciência da movimentação de seus companheiros de time, tem como principal característica o passe agudo-vertical que geralmente quebra as linhas da defesa adversária. Sem ser muito veloz, seu controle de bola o capacita para atuar nos lados do campo, utilizando sua habilidade como virtude para dar profundidade ao ataque. Quando possui a bola, ele dificilmente diminui seu ritmo quando está em progressão ao gol, fazendo com que mantenha uma constância muito alta e faça parecer que ele é veloz (algo que não é).

Dono de uma exímia visão de jogo, o grande lado positivo de quando atua mais centralizado — quase como um trequartista — é a maneira como consegue criar jogadas em pequenos espaços e dar longos lançamentos nos vazios defensivos. Dificilmente ele utiliza passes verticais, e isso faz com que force algumas jogadas desnecessárias durante um jogo. Contudo, por ser muito completo e ter muita qualidade no passe, pode ser considerado um jogador extremamente imprevisível ofensivamente.

Para uma criança, ele possui presença física e uma compreensão de jogo realmente boa. Pode marcar gols, e ainda entender as demandas do jogo taticamente. É um garoto muito inteligente e mostrou algumas coisas realmente boas, disse Patrick Vieira, ex-técnico das categorias de base do NYCFC. 

Ainda que prefira dar assistências ao invés de marcar gols, Gio também tem um bom poder de finalização, seja de média ou longa distância. Segundo o site do US Soccer, ele marcou 15 gols em 22 aparições durante a temporada 2017/18. Alinhando a finalização aos dribles curtos em pequenos espaços, ele é um perigo para a defesa adversária quando está próximo ao gol. Assim, é mais coerente que ele seja desenvolvido em uma função que contribua mais ofensivamente do que defensivamente.

Refém do pé-direito, tem como uma de suas especialidades a bola parada. Técnico e com qualidade suficiente para colocar a bola aonde quiser, ele também realiza cruzamentos eficientes. Se treinado como propriamente um winger, poderá aprimorar mais ainda esse atributo, visto que é necessário — na posição — dar profundidade aos ataques com dribles e velocidade, algo que ele deverá melhorar da mesma forma. “Ele é muito mais um atleta do que eu, muito mais um goleador”, disse seu pai. “Ele é muito técnico e tem uma boa noção do jogo. Ele tem um ótimo chute livre e pode acertar uma bola bem. Danielle (mãe dele) era uma ótima corredora – e ele é um corredor”.

“Acredito 100% no que estamos fazendo em NYCFC”, disse Claudio, “mas tenho que tirar meu chapéu como diretor esportivo para ele”.

De qualquer maneira, Giovanni Reyna já é um jogador versátil que poderá se desenvolver muito na boa academia de jovens do Borussia Dortmund. Antes de pensar em chegar ao profissional, ele precisará desenvolver algumas questões defensivas necessárias para atuar em uma grande liga europeia, já que tem sérias dificuldades em retornar para marcar ou simplesmente somente pressionar o adversário. Mas isso é e sempre foi algo natural dos jovens que jogam em ligas que exigem menos esforço defensivo.


Existem muitos obstáculos a serem superados: perda familiar, idioma, clima, clube e ideais diferentes. Algo natural para um jovem jogador que se transfere antes dos 18 anos, mas não parece que será um grande problema para ele. Capitão da seleção americana sub-17 e também do sub-18/sub-19 do New York City, mentalidade e personalidade não faltam para o americano de 16 anos.

“O pensamento dele saindo aos 16 anos é muito triste”, disse sua mãe à Sports Illustrated. “Tenho certeza que tem algo a ver com Jack também, no sentido de que confiei nele (Gio) como o grande garoto. Choro um pouco só de pensar nisso.”

Reyna espera seguir os passos de seu pai Claudio, que fez 74 aparições na Bundesliga pelo Leverkusen e pelo Wolfsburg nos anos 90. (Foto: imago/ZUMA Press)

Quando perguntado sobre como é crescer em uma casa com uma lenda da seleção dos EUA, Giovanni disse ao MLSsoccer.com em abril de 2017: “Eu o vejo como meu pai”, demonstrando personalidade e vontade de deixar pra trás a pressão de carregar um dos principais sobrenomes do futebol estado-unidense. Queira ou não, dificilmente ele deixará de ser comparado ao sucesso do pai. Resta saber se irá fazer jus a genética.

About Bruno Povoleri

Cursando Comunicação Social e apaixonado pelo futebol alemão. Games, Vasco da Gama e Borussia Dortmund.