O heptacampeonato do Bayern é a derrota da Bundesliga
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O heptacampeonato do Bayern é a derrota da Bundesliga

De um tempo pra cá, hegemonias no futebol se tornaram cada vez mais comuns. Como exemplo, os campeões dos principais campeonatos europeus da temporada passada foram os mesmos da atual. Claro, o aspecto financeiro e mercadológico tem grande parcela de culpa nisso. Há não muito tempo, equipes que atualmente dominam suas ligas nacionais pouco lutavam pela parte de cima da tabela. Mas há controvérsias.

Pela primeira vez na história do campeonato alemão, um time chegou a conquistar o título sete vezes seguidas. Exemplo de gestão bem sucedida no futebol, o Bayern de Munique é o ponto fora da curva das supremacias europeias. Sem precisar de aporte financeiro além de patrocínios, o clube pode ser considerado uma referência a ser seguida por muitos clubes do mundo, inclusive da própria Alemanha. Entretanto, para chegar nesse patamar, é preciso vencer campeonatos independentemente do momento ou da ocasião. No caso, isso já está no sangue bávaro.

Antes do acréscimo financeiro, é preciso que a mentalidade vencedora esteja instaurada no clube que busca almejar algo. No caso da Bundesliga, o Borussia Dortmund é o exemplo perfeito para provar o contrário. Com ampla margem de nove pontos na liderança da 15ª rodada, o time de Dortmund conseguiu fazer o impossível acontecer (especialidade da casa) e perdeu o título. Tudo bem que desde 2013 nenhum clube havia chegado tão perto de superar os bávaros na corrida pelo título. Mas essa estatística se torna inútil quando o óbvio entra em questão: esse é o pior Bayern da década.

Até o Bayern de Nico Kovac conseguiu vencer a Bundesliga. E agora? (Foto: Getty Images)

Diferentemente dos anos anteriores, a equipe da Baviera fez de tudo e mais um pouco pra conseguir perder a soberania local. Apesar de não ter sido o caso, é muito mais demérito das outras equipes do que mérito bávaro. Além do Borussia Dortmund e do Borussia M’Gladbach, ninguém chegou nem perto de, ao menos, dar um susto. O segundo, ainda que fosse evidente que não conseguisse brigar cabeça a cabeça com os atuais detentores do título, chegou a ter uma queda brusca de rendimento no fim da temporada.

Hoje, não há quem consiga competir com o Bayern. Por trás da disparidade técnica, também há a brutal diferença financeira. Exceto o próprio heptacampeão, qual outro clube alemão têm condição de pagar 80 milhões de euros num só jogador? Não existe. E pelo andar da carruagem, dificilmente vai existir. A gestão de todos os clubes germânicos aparentam ter medo de utilizar o mesmo método vencedor bávaro: a mentalidade.

O padrão é expôr o mesmo objetivo perdedor — não do ponto de vista financeiro e de marca, mas de perspectiva vitoriosa — de sempre: buscar uma vaga na Champions League e, se der errado, a Europa League serve como prêmio de consolação. Salvando uma ou duas equipes, é claro que a grande maioria não possuem a capacidade técnica-financeira para ousar no discurso. No entanto, também não procuram fazer por onde. É o estigma do DNA fracassado.

A Bundesliga 2019/20 nem começou e, como de praxe, já temos o favorito para conquistá-la (Foto: Reprodução/Twitter)

Independentemente de ser considerada (injustamente) uma liga de um time só, a Bundesliga não faz tenta mudar tal estigma. A ultrapassada regra “50+1” — em que delimita a maioria do capital (50% dos votos mais um) para permanecer sempre nas mãos do próprio clube – deve ser reformulada para, ao mínimo, dar a esperança de conseguir retomar a igualdade dentro e fora de campo. Nesse meio-tempo, o Bayern, que pouco tem de se preocupar com a adversidade, segue navegando em águas pacíficas.

Dentre todos os sete títulos bávaros, esse foi, talvez, o mais capaz de escancarar a ultrapassada realidade dos seus rivais. Jogando um futebol digno de nem estar no top-10 de melhores equipes da Europa, o campeão alemão da temporada 19/20 é o reflexo de um país que parou no tempo futebolístico. Para alcançar rumos melhores, é preciso enaltecer o fracasso do ponto de vista conceitual e técnico do campeonato como um todo. O baixo nível de todos os aspectos que envolvem os clubes alemães tem que ser pauta para os próximos anos, a fim de que seja possível evitar o vexame da (falta de) competitividade.