O “até logo” de Pál Dárdai encerrará um ciclo marcado pela extrema regularidade do Hertha Berlin na Bundesliga
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O “até logo” de Pál Dárdai encerrará um ciclo marcado pela extrema regularidade do Hertha Berlin na Bundesliga

Cada vez mais comum no futebol moderno, a promoção de um jovem treinador oriundo das categorias de base do próprio clube virou o refúgio de muita diretoria perdida. Entretanto, na Europa, principalmente na Alemanha, isso se tornou algo bem pensado e, principalmente, fundamentado. Por lá, é normal um treinador ter entre 30 a 40 anos, as vezes sendo até mais novo do que alguns jogadores do elenco. Mas não é uma má ideia. Muito pelo contrário, são (na teoria) conceitos modernos e novas ideias.

Após ter começado sua carreira na Hungria, jogando por Pécs e Budapesti VSC, Pál Dárdai defendeu o Hertha Berlin entre 1997 e 2011, quando se aposentou, tendo estabelecido o recorde de atuações pela equipe na Bundesliga: 286 jogos. Depois de ter pendurado as chuteiras, ele fez a transição para a carreira de técnico no próprio clube alemão e chegou a treinar interinamente a seleção de seu país natal, a Hungria, na fase de qualificação para a Eurocopa de 2016.

Na temporada 2014/15 pela décima nona rodada da Bundesliga, o Hertha figurava na vice-lanterna e vinha de três derrotas seguidas. Assim, o então treinador Jos Luhukay, que havia assumido a equipe após o rebaixamento da equipe em 2012, não suportou a pressão e acabou demitido. Então, Dárdai, treinador do sub-15 da equipe, assumiu interinamente o comando do time profissional. O resto é história.

Mesmo terminando a Bundesliga no décimo quinto lugar — próximo de disputar os playoffs do rebaixamento com 35 pontos, o Hertha Berlin decidiu dar continuidade ao seu trabalho e o anunciou oficialmente como técnico. (Foto: Divulgação/Hertha BSC)

Em seguida a sua primeira meia temporada no comando da equipe, a confiança depositada pela diretoria em sua capacidade foi determinante para o sucesso no longo prazo. Logo na temporada seguinte (2015/16), apresentando um futebol totalmente diferente de anos anteriores, o clube alemão terminou em sétimo lugar na Bundesliga e conseguiu a classificação para a pré-Europa League.

Mesmo batendo na trave logo no começo, pois foi eliminado na terceira eliminatória da Qualificação para Europa League pelo modesto Bröndby IF, a temporada 2016/17 correspondeu ao ápice do treinador húngaro no comando da equipe: 17 vitórias, 4 empates e 17 derrotas. Com um aproveitamento regular de 50%, o Hertha terminou na sexta colocação do campeonato alemão e acabou com o trauma da derrota nas eliminatórias de uma competição europeia: enfim se classificou diretamente para a fase de grupos da Europa League.

Já no período 2017/2018, houve uma visível queda técnica do time, acabando na quarta posição do grupo atrás de Athletic Bilbao, Östersunds e Zorya. A humilhante campanha europeia não fez com que os comandados de Dárdai tivessem menos regularidade na Bundesliga. Ficando com o décimo lugar na competição, o Hertha fez jogos duros contra Bayern de Munique e Borussia Dortmund, chegando a empatar com ambos.

Seja como jogador ou treinador, é difícil não vincular a imagem de Dárdai ao Hertha. (Foto: dir.md)

Há nove jogos sem vitória, e com um trabalho visivelmente desgastado, o Hertha comunicou em seu site oficial que o técnico de 43 anos, no comando do elenco desde 2015, não está nos planos da equipe alemã na próxima temporada. A decisão foi tomada na última terça-feira (16) onde ambas as partes entraram em acordo após um ano com resultados que, querendo ou não, deixaram a desejar. O húngaro segue no comando nas últimas cinco partidas.

“Pál Dárdai tem sido de grande ajuda do Hertha nos últimos anos, não apenas como recordista, mas também como treinador. Quatro anos e meio de trabalho positivo e construtivo juntos é muito tempo no futebol profissional. No entanto, decidimos juntos que um novo ímpeto neste verão é o passo certo para o Hertha. Pál é uma parte importante do desenvolvimento positivo do clube e continuará a ser um membro chave da família Hertha, além de seu período como treinador principal”, disse o diretor esportivo da equipe, Michael Preetz. 

Se o clube da capital alemã é o que é hoje, muito se deve ao treinador húngaro. Dono de uma maneira pragmática de jogar e, principalmente, refém de uma marcação com encaixes individuais, suas equipes sempre atuaram em diferentes formações, mas junto a um alto nível de concentração. E até por isso dificultou, e continua dificultando a vida dos melhores times na Bundesliga. Como parâmetro, em qualquer temporada contabilizada, há uma característica em comum: a regularidade.

Das 52 vitórias em 147 jogos de campeonato alemão, Dárdai só conseguiu vencer três partidas com três ou mais gols. É uma estatística que diz bem o estilo do treinador. Apesar de notoriamente não ser um time que ataque e marque muitos tentos por partida, geralmente tomou poucos gols. Dá pra contar nos dedos a quantidade de vezes que o Hertha, ao seu comando, chegou a ser goleado.

“Meus anos no comando do Hertha  foram muito intensos e agitados. Estou grato por essa chance e estou orgulhoso do que conquistamos durante esse período. Às vezes uma mudança é o necessário. Eu sempre disse que quero o melhor para o Hertha, pois o Hertha é e sempre será minha casa”, disse ele em sua despedida ao site oficial da equipe. (Foto: Divulgação/Hertha BSC)

Ainda que esteja próximo de acabar, a relação entre ambas as partes continuará a ter próximos capítulos: segundo a diretoria do clube, Dárdai retornará com a sua equipe técnica no verão europeu de 2020 para assumir algum time das categorias de base. Algo raro até então. Pode ser a pausa necessária para refletir e adquirir novos conhecimentos, mas é complicado acreditar que um treinador deste nível realmente tire um ano sabático.

Temporadas sólidas, times competitivos. Talvez o principal motivo para o relativo sucesso do Hertha nos últimos anos tenha sido a maneira como ele conseguiu transmitir — seu amor e vontade de vencer pelo clube — para os jogadores. Resta saber se ele realmente tem interesse em crescer profissionalmente na carreira ou irá preferir dar um passo atrás para manter seus laços afetivos com a equipe da capital alemã. O peso de ter dois filhos atuando no clube, sendo um deles (Palko Dárdai) já no profissional, também deve ser levado em questão. No entanto, mesmo jovem, Dárdai já possui experiência e bagagem suficiente para treinar um time de maior prestígio europeu.