Ainda que o futebol tenha evoluído muito nos últimos anos, o mito do craque “diferenciado” continua existindo e dificilmente deixará de existir. Neymar é um deles. Dentro campo, inconcebível contestá-lo, visto que já ganhou (quase) de tudo um pouco, e fez jus para tal. Mas sempre o vemos como um jogador que poderia ser mais do que é. Não pela bola, mas pelas atitudes, pela postura.

Existe de tudo um pouco na vida da estrela brasileira: dinheiro, parças, seu pai sendo seu próprio empresário e controlador da sua carreira, fama e muito futebol. Tudo isso ajudou a englobar a pessoa que se tornou Neymar. E foi aí que o problema se instaurou. A pessoa Neymar não pode ser julgada da mesma maneira que o jogador Neymar, apesar da imprensa agir como polícia do comportamento em qualquer que seja a situação o envolvendo. Aos 27 anos, ele ainda não entendeu a magnitude que suas ambas versões possuem, principalmente quando conflitam.

A derrota do dominante PSG na final da Copa da França para o modesto Rennes deveria ser o principal enfoque jornalístico-esportivo da semana. Contudo, devido às atitudes abruptas de uma personalidade que já não é bem-quista pela mídia como um todo, uma simples agressão ofusca o que deveria ser a notícia. Não existe mais aquela desculpa de que é um menino novo, em início de carreira, com muito para aprender e amadurecer. Já era para dar provas de que sabe encarar melhor os acontecimentos.

O menino presente dentro da sua mentalidade precisa ser deixado de lado. Infelizmente, não são com gols ou assistências que se resolve isso. (Foto: FoxSports)

Em específico, o grande equívoco da imprensa brasileira é ignorar o que ele faz dentro das quatro linhas, onde só falta fazer chover. Sem a menor sombra de dúvidas, tecnicamente, só está abaixo de dois ou três jogadores no mundo. Porém, falar o que todo mundo finge não saber, mas no fundo sabe, não vende jornal ou rende cliques. Trata-se de um “jovem” de 27 anos, com hormônios em dia, um farto dinheiro na conta bancária e uma vontade enorme de dar asas à cobra da patrulha dos donos da verdade.

Do gol ao soco, esse é o conflito que mais expôs as duas versões de Neymar. Mesmo depois de uma lesão, treinamentos, muita luta e superação para retornar bem aos gramados, conseguiu jogar uma partida de luxo no lixo. Para um jogador de futebol a nível profissional, não é todo dia que se consegue um gol e uma assistência logo após ficar meses longe dos gramados. Além do mais, o próprio Paris Saint-Germain projetou seu retorno na final para que ele conseguisse conquistar, pela primeira vez, um título no estádio do clube. Foi quase, mas a culpa — conforme parece — está longe de ser somente dele.

Quando joga bem, pouco se fala. Agora, quando é o contrário, estão evidentes as críticas, mesmo sem fazer tanto sentido. E o grande culpado disso tudo é ele mesmo, que consegue aumentar a pressão externa sobre si. (Foto: Divulgação)

Essa é a melhor versão do camisa 10 do PSG e da seleção brasileira. Provavelmente a mais decisiva dentro e fora de campo. Não bastou a situação desagradável que sua imagem obteve numa Copa do Mundo, sendo manchada pelo seu comportamento e postura questionáveis. Agora, mesmo com a braçadeira de capitão da seleção pentacampeã mundial, sua maturidade parece ter estagnado num nível bem distante do que é esperado por torcedores, admiradores e fãs da sua principal característica: o bom futebol.

Claro, cada um é cada um, mas Neymar já deveria estar preparado para o que aparece no seu caminho, essencialmente quando precisa entender sobre os riscos que eventualmente podem correr. A maior referência do Brasil e do PSG deveria evitar situações que nitidamente podem ser evitadas. No entanto, por algum motivo, parece que ele gosta e faz questão de ir além. A personalidade Neymar parece ser um livro que já deveria ter sido finalizado, mas está sendo escrito com capítulos, em sua maioria, polêmicos ou problemáticos. E o mais lamentável disso tudo é que, aparentemente, o livro está longe de ser concluído.