Malcom deu um passo maior que a perna e agora pagará o preço no Zenit
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Malcom deu um passo maior que a perna e agora pagará o preço no Zenit

Não é de hoje que bato na tecla da importância de uma gestão de carreira eficiente. Saber analisar e projetar o futuro de uma profissão como a de jogador de futebol é importantíssimo, visto que geralmente a vida útil da atividade gira em torno de 15 anos. Com a inflação do mercado, banalizou-se essa questão. Hoje, os valores envolvidos geralmente possuem as rédeas de uma negociação, e isso faz com que nem sempre o destino ideal seja escolhido.

Assim, Malcom escolheu o Barcelona mesmo depois de ter sido anunciado pela Roma. O time italiano pagaria 35 milhões de euros ao Bordeaux, que até chegou a anunciar o acordo pela transferência, mas recebeu uma proposta de 41 milhões de euros fixos mais 1 milhão de euros variáveis do clube espanhol e optou por voltar atrás, determinando que o brasileiro não viajasse mais para a Itália.

Como toda boa história, há o herói e o vilão. Nessa, não há herói e o vilão parece ser a Roma. No entanto, uma negociação futebolística funciona da seguinte maneira: quando o clube aceita a oferta de outro, o comprador passa a negociar diretamente com o jogador em questão, que pode recusar e melar o negócio por completo. Malcom, que nasceu na mesma geração que eu, cresceu vendo um Barcelona encantador nesta década. Logo, aceitou a proposta sem pensar em carreira, tempo de jogo ou qualquer outro benefício além do sonho de atuar em um dos maiores clubes do mundo.

Victor Salgado/FC Barcelona

Não o julgo por isso. Algumas escolhas são feitas pela emoção e não pela razão. Mas é bem provável que seus empresários receberam mais do que possivelmente receberiam se fosse à Roma. Além disso, por se tratar de um clube em outro patamar financeiro, o Barcelona deve ter oferecido um salário bem maior. Tudo isso leva a entender que as questões esportivas do jogador, que vinha em alto nível no Bordeaux e tinha margem para subir na carreira, ficaram em segundo plano.

Quem viu Malcom atuando especialmente na sua última temporada na França sabe do que estou falando. O potencial de evolução demonstrado dentro de campo era nítido. Não que hoje não seja, mas o hype diminuiu. E o grande culpado por isso é ele próprio, que mesmo sabendo do obstáculo para ter tempo de jogo em uma equipe que contratou dois jogadores – na mesma posição que a sua – por valores exorbitantes, resolveu dar um passo maior que a perna.

Sem entrar no mérito da subestimação do seu talento, a dificuldade envolvendo um jogador que sai do Bordeaux diretamente para o Barcelona é gigantesca. O caminho natural das coisas é ter paciência e ir de degrau em degrau até se desenvolver a ponto de adquirir capacidade suficiente para atuar, por exemplo, nos principais centros da Europa. Malcom tentou pular etapas e agora, aos 22 anos, descerá diversos degraus para atuar na Rússia.

Reprodução/Zenit

Pretendido por Tottenham e Borussia Dortmund, Malcom vai jogar no Zenit. O clube russo pagou ao Barcelona cerca de 40 milhões de euros mais 5 milhões em variáveis, além de ter deixado uma porcentagem (não divulgada) de futura venda. Desta maneira, o jovem brasileiro se tornou o quinto reforço mais caro da história do futebol na Rússia. Apesar das ofertas de clubes mais tradicionais, o time russo foi o único capaz de cobrir seu atual salário, fora que pagará seus vencimentos sem impostos, ou seja, ele passará a ganhar mais.

Mais uma vez parece que Malcom não aprendeu. Pela segunda vez seguida, a questão financeira foi colocada em primeiro plano. De qualquer modo, dos clubes mais interessados em contar com seu futebol, nenhum seria capaz de igualar a oferta financeira russa, além de que também fosse provável não conseguirem dar minutos suficientes para impulsionar seu desenvolvimento. No Tottenham, por exemplo, Malcom chegaria para ser o mais bem pago do elenco, à frente até do badalado Harry Kane.

No mais, não acho que a Rússia seja o fim do mundo para Malcom. Existem alguns casos de outros jogadores que foram para lá e hoje estão em grandes clubes europeus. Como na vida, às vezes é preciso dar um passo pra trás para dar dois passos lá na frente. Na flor dos seus 22 anos, ele ainda tem tempo necessário para corrigir os erros de decisões envolvendo a gestão de sua carreira e estar longe dos holofotes pode ser mais benéfico do que prejudicial neste momento.