Lucas Paquetá no Milan é uma faca de dois gumes
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Lucas Paquetá no Milan é uma faca de dois gumes

Cada vez mais o futebol brasileiro é taxado como um mercado exportador e muito disso se explica pelos clubes brasileiros, reféns do amplo poder aquisitivo dos clubes europeus. Nenhum deles suporta o constante assédio a cada nova abertura de janela de transferências. Para piorar os compradores estão indo direto na fonte, a base dos clubes, levando as joias sem que elas sejam lapidadas ou ao menos cheguem a estrear nos profissionais. O curioso é que os clubes brasileiros vendem a rodo e gastam esse dinheiro em atletas mais experientes.

Lucas Paquetá é mais uma vítima da comum política de vendas instaurada no Brasil e, após inúmeras especulações, foi contratado pelo Milan, que vai desembolsar € 35 milhões (cerca de 168 milhões de reais) para contar com o principal jogador do Flamengo. Não é de hoje que o gigante italiano vive momentos difíceis comparado as glórias do passado, além de passar por visíveis dificuldades de reestruturação.

Além da crise estrutural, o sucessor de Silvio Berlusconi (que foi dono do Milan por 31 anos), Li Yonghong, para comprar o Milan, estabeleceu uma parceria com o fundo de investimentos americanos Elliot, que designou milhões de euros ao chinês para que a compra fosse sacramentada. Apertado financeiramente, o Milan de Li passou a ser alvo de investigações da UEFA e foi excluído e impedido de disputar, até então, qualquer competição européia por dois anos. Contudo, voltou a ter direito de disputar depois que a Elliot tomou as rédeas gerais do clube e entrou com um recurso no Tribunal Arbitral do Esporte (TAS), conseguindo anular a suspensão. Atualmente, o Milan vive altos e baixos: 10ª posição com 12 pontos no Italiano e na Liga Europa, líder do Grupo F com 6 pontos.

OBS: os números de Lucas Paquetá pelo Flamengo (jogos, gols e assistências) foram obtidos a partir de pesquisas em sites como ogol.com.br, footstats.net e transfermarkt.com

Os números falam por si. Até o momento, Paquetá é o melhor jogador do Flamengo e possivelmente o mais completo em solo brasileiro. Versátil, técnico e muito físico, mesmo não estando pronto, era questão de tempo para, enfim, rumar a Europa. Especulado em Manchester City, PSG e outros grandes clubes da primeira prateleira do futebol mundial, a transferência para o conturbado Milan é surpreendente e desafiadora.

No Flamengo, Paquetá já executou praticamente todas as funções que requisitam criação e finalização – até mesmo já atuou como principal referência no ataque, ainda que esta não seja a melhor forma de usá-lo. Por isso, teria vaga em basicamente todas as posições mais avançadas dos Rossoneri, com exceção do comando de ataque, dado que há Gonzalo Higuaín. Aos 21 anos, a expectativa em torno do seu talento é tão grande que até a imprensa italiana já especula quais serão as mudanças que Gattuso fará para colocá-lo no time titular.

Comparado a Kaká, Lucas Paquetá vai encontrar um projeto e ambiente completamente diferente do que o ídolo Milanista se deparou quando, ainda jovem, saiu do Brasil. Com carências no posicionamento e na movimentação, pode ser que na Serie A – famosa por fortes marcações e poucos espaços, o jovem de 21 evolua como jogador e entenda o jogo coletivamente, sem a necessidade do drible em qualquer região do campo.

Ir a uma liga dominada por ”um time só” e ser instruído por um treinador que, na teoria, não tem fama em dar oportunidades a jovens, acaba alimentando o risco de acontecer com Paquetá o que aconteceu com Gabriel Barbosa na Internazionale (exatamente pela carência de leitura de jogo). Entretanto, o atual jogador do Flamengo tem tudo e mais um pouco pra ser referência na Itália e futuramente dar o salto necessário na carreira. Ainda assim, hoje, o Milan precisa mais de Paquetá, do que Paquetá do Milan.