Lewandowski e a falácia decisiva
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Lewandowski e a falácia decisiva

No futebol moderno, cada vez mais é necessário que os atacantes participem de tarefas pouco agradáveis, tais como voltar para ajudar na marcação e/ou pressionar sempre que possível o adversário. Entretanto, apesar da função ter evoluído com o tempo, quando o centroavante é requisitado, colocar a bola no fundo da rede passa a ser uma obrigatoriedade. Também não são apenas os gols que marcam: os melhores artilheiros sabem improvisar com o que é necessário para fazer o que tem que ser feito.

Embora o tipo de atacante oportunista — aquele que reina na grande área — esteja desaparecendo do futebol, ainda existem alguns atletas que fazem com que este trabalho pareça fácil. Robert Lewandowski é um deles. O polonês é um verdadeiro “centroavante-centroavante”, participando pouco do jogo por ser dono (e não ser mais um moleque) de uma precisão cirúrgica na hora de finalizar as jogadas. Doa a quem doer, ele é o protótipo de um grande atacante.

Só que existe um obstáculo nisso tudo: grandes atacantes decidem grandes jogos. Lewandowski, primeiro jogador a atingir, mais rápido do que qualquer outro estrangeiro na Bundesliga, a marca dos 100 gols, passou a não resolver jogos importantes há um bom tempo. Na eliminação da Champions League para o Liverpool, ele chegou ao sétimo jogo consecutivo de mata-mata da principal competição de clubes da Europa sem marcar. Isso exemplifica bem o que se tornou o centro-avante do Bayern de Munique: o artilheiro dos gols menos significativos.

Foi em 2013, na fatídica partida contra o Real Madrid, a última grande atuação de Lewandowski em mata-mata de Champions League. Na ocasião, o polonês marcou os quatro gols da equipe auri-negra. (Foto: Getty Images)

Na atual temporada, o centroavante polonês não possui números ruins. Muito pelo contrário, são muito expressivos para quem começou mal a temporada. Artilheiro da Bundesliga, sua conquista nesta época como o maior artilheiro estrangeiro do campeonato com 197 gols não pode passar despercebida. É uma marca digna de lendas futebolísticas. Mais do que números, suas atuações na competição local continuam em ascendência. E se tem algo que pode ser enaltecido, é a sua regularidade dentro da mesma. Há anos vem desempenhando jogos decisivos para os títulos do Bayern de Munique, além de raramente não figurar entre os principais artilheiros.

Em oito jogos de Champions League, foram oito gols. Todos na fase de grupo. E aí que está o X da questão: quando o gigante da Baviera mais precisou dele em mata-matas, ele sequer fez bons jogos. A birra da torcida não é sobre seu talento ou sua capacidade de marcar gols. Isso todos sabem que não falta. Mas quando o calo aperta e os grandes jogadores tendem a serem decisivos, ele some. Quase não dá mais para contar nos dedos as vezes que o polonês decepcionou em momentos primordiais para as pretensões do seu clube e até mesmo da sua seleção.

Para medida de comparação, na Copa do Mundo, o principal evento esportivo do mundo e representando seu país, sendo a esperança de uma seleção que buscava recuperar seu prestígio, pouco fez e passou em branco em todos os três jogos da fase de grupos da competição. Na UEFA Nations League, atual torneio mais relevante entre seleções da Europa, ele também atuou em três jogos e, ainda que tenha dado duas assistências, não marcou gols. Assim, fica evidente que o problema é mais grave do que parece ser.

Pro torcedor bávaro, ainda existe valor na conquista de uma Bundesliga ou uma Copa da Alemanha. Para o clube e sua diretoria, as competições e o domínio local saturaram, por mais que nessa temporada esteja tendo um enredo um pouco diferente, mas que no final das contas, a história provavelmente será a mesma. Contudo, a Champions League passou a ser o principal objetivo almejado para refletir, no continente, a autoridade regional. Mesmo próximo do seu hexacampeonato em sequência, não será dessa vez. E isso passa pelos pés de Lewandowski.

Todo grande clube espera grandes atuações do seu camisa 9 em jogos cruciais. Não seria no Bayern de Munique que isso não aconteceria. A situação do polonês chegou ao ponto da torcida pouco importar sobre seus gols na Bundesliga ou em outras competições de menor prestígio. Mesmo que não pareça ser justo, há razão: é o maior salário do elenco e provavelmente o jogador com maior capacidade de decidir uma partida com poucos toques na bola. Hoje, uma artilharia a mais outra a menos pouco interessa se nas ocasiões de maior necessidade ele pouco faz por onde.

“Sabíamos que seria um jogo difícil, mas em ambos os jogos jogamos de forma defensiva demais. Não tentamos avançar para criar situações — no primeiro jogo e hoje. Estávamos jogando muito fundo, não assumimos riscos, não sei por quê. Tentamos empurrar o Liverpool, mas ofensivamente às vezes eram 2 contra 4 jogadores e é por isso que não fizemos muito. Tive muitos duelos hoje, foi muito difícil porque eu estava sozinho. Se você está sozinho contra dois ou três bons jogadores, então é difícil”, disse Lewandowski, criticando as táticas em entrevista no pós-jogo do Liverpool pela Champions League. 

Sim, ele continua fazendo gols. Toneladas de gols. Mas são gols que não possuem a mesma grandeza de um decisivo em eliminatórias de Champions League. Lewandowski vai continuar sobrando na Bundesliga, na Copa da Alemanha ou em amistosos da Polônia, isso é inegável. Porém, a confiança — da torcida em geral — na sua eficácia em grandes jogos é próxima de zero. Assim como foi com Arjen Robben, ele ainda tem tempo suficiente para desmistificar essa fama e dar a volta por cima. Mas, por declarações como a acima, parece que pouco importa sair da sua zona de conforto e ter auto-crítica.

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