INTZ e o fantasma da experiência

Quase não dá para contar nos dedos a quantidade de times brasileiros que foram disputar competições internacionais, perderam, e voltaram com o bom e velho discurso da experiência. Curiosamente, isso não é relativo somente ao âmbito de eSports, visto que também existem equipes dos mais variados setores esportivos que utilizam o fracasso como algo positivo.

Campeã do primeiro split do Campeonato Brasileiro de League of Legends (CBLoL) deste ano, a INTZ, com razão, foi a equipe vencedora menos badalada dos últimos anos. Amplo favorito, o Flamengo chegou a final da competição com apenas uma derrota e uma line-up estrelada de jogadores com história e retrospecto vitorioso. Nem o mais otimista imaginava um cenário diferente do que a vitória rubro-negra. Como não aconteceu, naturalmente o foco mais comentado foi a derrota do Flamengo ao invés da vitória dos Intrépidos. E isso continua tendo contribuição direta no pessimismo da fã base brasileira de League of Legends (LoL) sobre os atuais campeãs nacionais.

Existem motivos dos mais variados para explicar a toxicidade dos adeptos de LoL no Brasil. Um deles foi a forma patética de como equipes brasileiras atuaram e continuaram atuando, mesmo com o passar dos anos, em solos do exterior. Com a mesma estratégia de realizar bootcamp na Europa/Ásia e depois retornar dizendo que aprendeu isso e aquilo, acabou saturando a esperança de ver algo positivo por parte de um cenário estagnado (quando comparado com outras potências).

Antes das competições internacionais de 2018, a KaBuM era, talvez, a principal esperança de tentar fazer algo diferente. Não conseguiu. E o discurso na volta foi o de sempre: pelo menos aprendemos algo. (Foto: Divulgação/Riot)

Excluindo o suporte Ygor “RedBert” Freitas, que disputou o Mundial de LoL em 2017 pela Team oNe, nenhum dos jogadores da line-up campeã da INTZ (Rodrigo “Tay” Panisa, Diogo “Shini” Rogê, Bruno “Envy” Farias e Guilherme “Mills” Conti) chegaram a disputar quaisquer que seja o torneio no exterior. Então, o MSI 2019 que começou hoje (01) será a primeira vez de quase todos. O atirador Matías “WhiteLotus” Musso, único do elenco que possui traquejo internacional (até por ser estrangeiro), não estará no elenco para a competição. Escolhido pelo treinador Lucas “Maestro” Pierre, Emerson “BocaJR” Alencar será o pro player reserva da equipe brasileira. Conclusão: cinco dos seis jogadores não possuem a famosa experiência internacional.

Por isso, a perspectiva de um resultado positivo é ainda mais subestimada. Em contrapartida, conquistar a principal competição do país deveria ser o suficiente para certificar que a equipe campeã é a mais capacitada para representar aquela nação num torneio internacional. Não é o caso da comunidade brasileira. Ao ESPN eSports Brasil, RedBert revela achar errado esse pensamento “porque ao invés de apoiarem o time que está indo, eles ficam contestando e falando que outro seria melhor”.

“Querendo ou não, mesmo uma pessoa ligando ou não para os comentários, dá uma desanimada porque o que era para ser o maior motivo de eu querer ir lá e ganhar, que é representar o meu país e ir bem pelo Brasil, acaba me desmotivando porque nem o país quer que eu vá bem, eles torcem pela nossa vergonha, torcem para que a gente vá mal só para confirmar o ponto de que outro time seria melhor”, opina RedBert.

Apesar de ser uma declaração forte, é a verdade. O grande problema dos torcedores que acompanham a modalidade é a necessidade como eles precisam falar algo desnecessário do ponto de vista esportivo-profissional. Qual a contribuição de chegar nas redes sociais em geral e mencionar os jogadores da melhor equipe do país dizendo falas negativas que não acrescentam basicamente nada? O “apoio” cético das pessoas em que, na teoria, deveriam agregar positivamente o psicológico dos representantes, é o principal obstáculo antes mesmo do discurso falado previamente as competições internacionais.

Sem conquistar um título desde 2016, e agora com quatro taças de CBLoL, os Intrépidos não podem ser desprezados quando o assunto é história nacional. (Foto: Divulgação/Riot)

Como é natural, não há grande expectativa em cima dessa INTZ. Mesmo que seja clichê, queira ou não, agregará experiência de palco e conhecimentos, até porque isso é o máximo que a derrota consegue contribuir. Nessa história, não há lado perdedor. Tanto na derrota como na vitória terá mais aspectos positivos do que negativos. Claro, se conseguir fazer uma boa competição, ótimo. Se não, algum aprendizado acontecerá, seja ele bom ou não.

A demonstração otimista baseada nas falas dos jogadores para o MSI 2019 parece dar um ar mais esperançoso. O intuito de continuar com o mesmo estilo de jogo que mostrou no CBLoL, com picks agressivos e jogadas mais arriscadas, ainda que pareça improvável, pode dar certo se colocada em prática. Chega de copiar equipes que estão na mesma competição. Mais uma vez, esse é o momento ideal para o Brasil ao menos se tornar uma Cloud9 do cenário estrangeiro. E só vai mudar isso quando o discurso corriqueiro de derrotado acabar.

About Bruno Povoleri

Cursando Comunicação Social e apaixonado pelo futebol alemão. Games, Vasco da Gama e Borussia Dortmund.