Griezmman encerra um ciclo vitorioso e contraditório ao mesmo tempo
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Griezmman encerra um ciclo vitorioso e contraditório ao mesmo tempo

Não é de hoje que o mundo do futebol é famoso pela imprevisibilidade — dentro e fora de campo — e pela capacidade de dar voltas em poucas frações de segundos. Há não muito tempo, era comum o jogador beijar o escudo do clube com verdadeira paixão. Hoje, os tempos mudaram e essa ação, sendo verdadeira ou não, se tornou cada vez mais comum no esporte. Uma coisa é certa: o futebol mudou e, com ele, a dinâmica também mudou. O que é falado ontem, já não vale mais para hoje.

Contratado em 2014 depois da Copa do Mundo daquele ano, Antoine Griezmann já chegou com um certo status no Atlético de Madrid. Mesmo estreando pela França no mesmo ano, ele já chamava a atenção de vários clubes europeus pelas suas frequentes boas temporadas na Real Sociedad. Tanto que na sua última temporada pela equipe fez 20 gols, sendo 16 deles na La Liga, além de ter dado outras cinco assistências.

Diferentemente de como atuava na Real Sociedad, Griezmann, logo na sua primeira temporada pelo Atleti, marcou 25 gols (22 deles na La Liga, terminando empatado com Neymar na 3ª posição da artilharia do campeonato) e distribuiu seis assistências. A principal mudança para que ele conseguisse elevar seus números, que já eram bons, foi a maneira como Simeone encontrou para fazer com que ele participasse mais do jogo, atuando ao lado do centroavante na última linha de ataque. Assim, o francês conseguiu ter mais liberdade para deambular dentro de campo.

Aos 23 anos, Griezmann já era um dos principais jogadores do campeonato espanhol (Foto: Divulgação/Atlético de Madrid)

Mantendo a crescente, a sua segunda época (15/16) foi a mais goleadora da sua trajetória futebolística: 32 tentos. Apesar de manter a média de poucas assistências, a sua cooperação para o funcionamento do time de Simeone era mais do que essencial. Em virtude disso, ele foi fundamental na campanha que levou o Atlético a final da Champions League, quando marcou sete gols durante toda a competição.

Mais participativo, mais completo. Com o passar do tempo, Griezmann foi aperfeiçoando todas as qualidades necessárias para atuar em qualquer que seja a função ofensiva. Os números podem comprovar isso: na terceira temporada com a camisa rojiblanca, ele cravou 26 gols e deu 12 assistências, superando todas as suas marcas anteriores. Contudo, seu auge foi na 2017/18, quando participou de 45 gols (15 assistências e 29 gols) em 49 jogos. Essa foi, provavelmente, a melhor temporada de sua carreira.

Em seu ápice técnico, o francês de 28 anos deslumbrou o planeta na Copa do Mundo de 2018. Para muitos, foi o melhor jogador daquela estrelada França. Completo e capaz de decidir os jogos mais complicados, não é loucura afirmar que ele merecia estar no top-3 de melhores do mundo daquele ano. Campeão do principal torneio do mundo e da Liga Europa, ainda que tenha terminado com relativos poucos gols em ambas competições, suas atuações foram o “ponto fora da curva” para as respectivas conquistas.

A Copa do Mundo foi o título “divisor de águas” para a mudança de mentalidade do jogador (Foto: Getty Images)

É natural que todo jogador que se destaca em uma equipe de médio para grande porte atraia interesse dos principais clubes europeus. Assim, antes mesmo da Copa do Mundo, o Barcelona — atual provável destino do jogador — já despontava como o principal interessado em contar com o futebol do francês. Não a toa se dispunha de pagar a cláusula de 100 milhões de euros do jogador. Entretanto, além de ter ficado balançado com a oferta, Griezmann usou daquilo como gancho para produzir conteúdo midiático. E esse foi o seu grande erro.

Na antevéspera da estreia da seleção francesa na Copa do Mundo, contra a Austrália, ele anunciou sua permanência no Atlético de Madrid por meio de uma ação publicitária de uma operadora de telefone celular. Um filme de cerca de 50 minutos foi exibido na televisão francesa com o título “A decisão”. O vídeo mostrou cenas bem pessoais dele com a sua família durante todo o processo de decisão, que conviveu com as dúvidas sobre a transferência durante toda a campanha vitoriosa do clube na Liga Europa.

Numa das cenas do filme, sua esposa lhe disse: “se você ganhar a Champions aqui (no Atlético) entrará para a história. Se ganha lá (no Barcelona), será apenas mais um”.

Depois de todo alarde feito, 11 meses depois, ele voltou atrás na sua decisão. Após informar ao clube que defenderá uma nova camisa na próxima temporada e se despedir dos companheiros, o francês foi a público nesta terça-feira (14) comunicar seu adeus após cinco anos defendendo a camisa colchonera. Isso tem a ver com o seu contrato em que, mais uma vez, terá a multa rescisória reduzida. Em julho deste ano, a sua cláusula de rescisão cairá de 200 milhões de euros para 120 milhões de euros. Um valor mais do que pagável na atual circunstância do mercado europeu.

Provavelmente a caminho do Barcelona, Griezmann deixa o Atleti como quinto maior artilheiro da história do clube, atrás de Luis, Escudero, Campos e Gárate. Foram 133 gols em 252 jogos e três títulos: uma Liga Europa, uma Supercopa da Europa e uma Supercopa da Espanha. Desde a chegada até a partida, sua influência na mudança de visibilidade do clube é total. O fim de uma bonita história termina com uma saída melancólica. Para quem entrou pela porta da frente e agora sai pelos fundos, será que realmente valerá a pena trocar uma idolatria por um novo rumo?

“Foram cinco anos incríveis, desfrutei muito, dei tudo em campo, tentei ser um bom garoto com todos e tentei dar muitas alegrias a todos os torcedores que vinham ao (estádio) Metropolitano, disse o atacante.

Além da mudança de ares e de novos desafios, não é segredo para ninguém que ele vai em busca de conquistas tanto pessoais, como coletivas. Aos 28 anos, a idade já não é a mesma de quando também buscou subir de patamar na carreira ao trocar a Real Sociedad pelo Atleti. Seja qual for seu destino, dificilmente ele vai encontrar o que possuía em Madrid: respeito, adoração e confiança. E talvez isso não tenha sido levado em conta. Toda aquela exibição feita para dizer bonitas frases e afirmar que permaneceria, agora conclui a tese: não passava de um teatro.

Não havia a menor necessidade de impulsionar uma decisão que é comum na carreira de um jogador de futebol. Hoje, se não tivesse feito uma tempestade no copo d’água, a sua escolha seria compreensível. Quantos outros jogadores já trocaram o Atlético de Madrid pelo Barcelona? É natural. Mas não quando você faz juras de amor e promove uma ilusão ao torcedor. A partir de agora e pelo resto da sua carreira, Griezmann carregará a hipocrisia causada por algo fútil, fazendo com que nem as suas constantes boas atuações consigam maquiar a deslealdade pregada pela mistura entre as versões pessoais e profissionais do seu caráter.

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