Descendente de pais camaroneses e nascido em Paris, França, Evan N’Dicka fez toda a sua formação de base no AJ Auxerre, clube que joga a Ligue 2 (segunda divisão francesa) e já revelou nomes como Éric Cantona, Bacary Sagna, Willy Boly e Sebastian Haller. Por lá, ingressou aos 13 anos e progrediu a ponto de estrear profissionalmente já aos 17, em janeiro de 2017. Um mês depois, assinou seu primeiro contrato profissional com a equipe francesa.

Mas não demorou muito para que outros times europeus se interessassem pelo seu futebol. E foi assim que, com somente 16 jogos em uma temporada e meia no profissional, N’Dicka foi comprado pelo Eintracht Frankfurt por 5.5 milhões de euros. Adaptado logo de cara e mesmo com pouco tempo de casa, estreou na Bundesliga já na primeira partida do clube na temporada, entrou no time titular e de lá não saiu mais, principalmente nos primeiros seis meses, quando viveu sua melhor fase.

Ele é muito maduro para sua idade, disse Fredi Bobic, diretor de esportes do Eintracht Frankfurt.

Inicialmente contratado para ser reserva, o jovem zagueiro se tornou titular com atuações extremamente seguras, emplacando logo de cara, 17 dos primeiros 18 jogos da temporada jogando os 90 minutos. Talvez nem ele esperava que teria tantas oportunidades em tão pouco tempo, até porque o provável de acontecer é justamente o contrário. Um jovem que sai da segunda divisão francesa para atuar num dos principais clubes da Bundesliga geralmente demora a receber chances de mostrar seu futebol. É natural, faz parte do jogo.

Entretanto, existem casos e mais casos. As circunstâncias do zagueiro de 19 anos são diferentes. Quando chegou, encontrou uma equipe sendo remontada pelo competente treinador Adi Hütter, que preteriu utilizar três zagueiros na sua formação base. Assim, o Frankfurt, que possuía na época cerca de uns cinco zagueiros contabilizando o francês, precisava de material humano capaz de manter o nível quando a rotatividade fosse necessária. Então, N’Dicka agarrou as oportunidades que teve e com muita justiça se tornou titular quase que indiscutível.

Majoritariamente atuando pelo lado esquerdo da linha defensiva de três zagueiros, o francês viveu uma excelente primeira metade de temporada, chegando a atuar em quase 100% das partidas daquele período. No entanto, logo após a pausa de inverno, ele ficou no banco pela primeira vez, dando a entender que tinha perdido seu posto de titular da equipe. Porém, não foi isso que aconteceu, e N’Dicka voltou a ser titular logo na próxima partida e manteve o script.

Em fevereiro, mês em que foi premiado o jovem jogador da Bundesliga, o camisa 2 das águias fez jus ao que vinha apresentando anteriormente e foi justamente eleito. Nos seus quatro jogos pela competição naquele mesmo período, ele obteve números que comprovam o quão dominante conseguiu ser: 77% de duelos aéreos vencidos, 61% de duelos ganhos no geral e 86% de aproveitamento nos passes.

Ele não mostra nervos e joga com grande autoridade, disse Alexander Schur, ex-jogador do Frankfurt.

Extremamente parecido com seu companheiro de Seleção Sub-20 e de Bundesliga, Dan-Axel Zagadou do Borussia Dortmund, ele é um zagueiro de muita força física, bom posicionamento, boa capacidade de passe e, crucialmente para um defensor, ótimo nos desarmes. Com 1,92 metros de altura, é difícil vê-lo perder bolas aéreas defensivas. Em conjunto a sua boa leitura do jogo, N’Dicka também acrescenta velocidade e versatilidade, sendo capaz de jogar como central, lateral-esquerdo e até meio-campista defensivo. E ele não negligencia a parte ofensiva, projetando-se regularmente no ataque. Ainda assim, é preciso que melhore alguns outros aspectos defensivos, principalmente a sua tomada de decisão para que se evite de criar erros capitais de gol.

Ainda que não possa ser considerado um defensor pronto, até pela pouca idade, pode se dizer que há um futuro muito promissor. Além do mais, ele pode ser considerado parte do seleto grupo de bons/ótimos centrais franceses com menos de 23 anos na Bundesliga: Benjamin Pavard, Abdou Diallo, Dayot Upamecano, Ibrahima Konaté e por aí vai. De toda forma, foi um grande achado do departamento de scouting do Frankfurt, que foi buscar um jovem zagueiro — ele nem possuía 20 partidas oficiais na carreira — em uma liga de baixo nível.

Avaliado quase que seis vezes mais do que quando chegou à Alemanha, seu valor de mercado é a exemplificação perfeita para a grande temporada que teve. Não é à toa que clubes como o Paris Saint-Germain já começaram a demonstrar interesse na sua contratação. Se mantiver o nível da última temporada, uma coisa é certa: dificilmente o clube alemão conseguirá manter N’Dicka por muito tempo. Entretanto, o melhor a se fazer por ora — pensando exclusivamente no benefício para a sua carreira como um todo — é continuar na Bundesliga.

*O jogador foi eleito o melhor novato da Bundesliga do mês de fevereiro. Para concorrer, é preciso que nunca tenha atuado na competição anteriormente e possua menos de 23 anos. A votação para rookie of the season (estreante da temporada) foi feita por voto popular.