Faltam doses de pragmatismo à Fernando Diniz
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Faltam doses de pragmatismo à Fernando Diniz

De fato, no futebol há dimensões estéticas próximas a de uma obra de arte. O reconhecimento que é colocado quanto a um belo jogo, um chute, um time de futebol, tudo isso exemplifica e induz que o homem é capaz de realizar, com os pés, uma beleza próxima do admirável. Desde Johan Cruyff a Pep Guardiola, a posse de bola foi incluída como um estilo de jogo belo, capaz de encantar com jogadas envolvendo paciência e movimentação. Como de praxe, não demorou para que tentassem pôr em prática por aqui.

Famoso desde aquele Audax que encantou no campeonato paulista de 2017, Fernando Diniz chamou a atenção por tentar introduzir o fatídico estilo de posse no Brasil em um clube com pouca visibilidade, fraco material humano e que disputava o estadual mais difícil do país. Englobando todos esses requintes, é bem provável que tenha sido incipiente em realizar tal fato. Claro, não foi o primeiro e nem será o último. No entanto, a mídia em torno da sua capacidade como treinador passou a ser imódica.

O discurso empregado em boa parte das mesas redondas da época era o seguinte: quando será que poderemos ver as ideias do treinador em um clube grande? Pois então, o Athletico Paranaense decidiu pagar o preço da aposta. E pagou caro. No início tudo parecia bonito e vistoso: passes, formações táticas revolucionárias, jogadores que hoje são referências nas suas respectivas posições de origem atuando improvisados ou figurando constantemente o banco de reservas e resultados completamente malucos tal qual a vitória de 5 a 4 sobre o Tubarão pela Copa do Brasil.

Albari Rosa

Apesar de todos os lados positivos (se é que dá pra chamar assim), a grande pedra no sapato da carreira de Fernando Diniz veio à tona: os resultados. Quando tudo começou a dar errado, inclusive ocasionando sua demissão do Athletico, várias teorias surgiram no jornalismo esportivo brasileiro de que eram problemas de relacionamento, “perda” do grupo e outras diversas suposições que não envolviam propriamente a tática empregada. Mesmo com um péssimo aproveitamento no início do campeonato brasileiro de 2018, chegaram até a dizer que havia sido injustiçado.

Pois bem, outra chance de ouro caiu em seu colo: treinar um Fluminense com jovens jogadores englobando um elenco que certamente poderia render da mesma forma que o do seu clube anterior. Para melhorar, pediu reforços e alguns apareceram, como Ganso, que foi atraído pelas promessas do treinador. Com isso, todos os caminhos induziam a um sucesso no curto, médio e longo prazo, visto que teria (e teve) tempo para trabalhar.

Porém, como nem tudo são flores no obscuro mundo do futebol, a mesma diretoria que deu carta branca, o derrubou. Negociou jogadores importantes chegando a desmanchar mais de um time, muito por conta dos frequentes atrasos salariais e salários superiores quando comparadas aos que os jogadores possuíam em Xerém. Mais uma vez, o que havia começado muito bem especialmente no campeonato carioca, passou a desandar quando o principal campeonato do país chegou.

Mailson Santana/Fluminense F.C

Tal qual um fraco roteiro de filme, o destino de Fernando Diniz no tricolor ficou previsível. Mais cedo ou mais tarde, sua demissão chegaria. Até acredito que poderia ter tido um ou dois jogos a mais antes de cair, mas a situação estava bem próxima do insustentável. Não dá para negar que os problemas envolvendo transferências e finanças tiveram enorme parcela de culpa nisso. Talvez se os 14 jogadores que saíram tivessem permanecido, o cenário seria outro. Quem sabe se os salários fossem pagos em dia, os jogadores poderiam render mais. Assim, conseguiriam fazer os gols que faltaram em diversas ocasiões quando foi imposto um forte ritmo de jogo e as vitórias não apareceram.

Mas se a minha mãe fosse homem, eu teria dois pais. Basear-se nas hipóteses e não nos fatos é, no mínimo, imprudente e oportunista. O principal fato envolvendo Fernando Diniz é a falta de variações táticas, que consequentemente abrangem as doses de pragmatismo que o futebol brasileiro necessita. Por aqui, não importa o que aconteça, vencer sempre foi será mais importante do que jogar bem. E, no seu caso, o que conseguiu fazer foi justamente o contrário: jogar bem e não vencer.

Com mais uma demissão no currículo, é preciso olhar com outros olhos ao valor que deve ser dado à Diniz. Um treinador incapaz de vencer o lanterna do campeonato na qual sua equipe possui o maior índice de finalizações por partida (17) é injustificável. Fora que jogar a culpa nos inúmeros erros de arbitragem não explica fazer apenas 1,26 gols a cada 90 minutos, permitir 12,3 chutes em média à sua meta e levar 1,66 tentos por jogo, de acordo com o WhoScored. Logo, tudo levar a crer que os maiores problemas envolvendo Diniz — além dele mesmo — é a petulância em escolhas questionáveis e a falta de repertório tático, dois dos principais causadores de derrotas no mundo do futebol. Torcemos para que os sequenciais fracassos o façam aprender e adaptar as ideias que já são interessantes, mas precisam de resultados para possuírem valor.

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