Não é de hoje que existem casos de indisciplina no futebol. O avanço do investimento, com cifras astronômicas, alterou a maneira como as decisões para erradicar a desordem são tomadas, fazendo com que o processo de “passar a mão na cabeça” dos jogadores aumentasse consideravelmente. Hoje, os principais atletas do mundo se acham no direito de poder fazer o que bem entendem. Por isso, a presença dos organismos reguladores (vulgo os próprios clubes) precisam agir de maneira persistente.

Quando saiu do Brasil, Walace, campeão da Copa do Brasil e olímpico, sequer houve algum rastro de polêmica o envolvendo. Afinal, era titular indiscutível, estava no seu país de origem, e tinha muito mais facilidades do que dificuldades. Vendido para o Hamburgo por 10 milhões de euros (cerca de R$ 33,67 milhões na cotação da época), o volante, que desembarcou na Alemanha em janeiro de 2017, não encontrou seu melhor futebol logo de cara. Foram 11 jogos (nove como titular) e somente 1 gol marcado.

Terminando a temporada 2016/17 como reserva, Walace começou a época seguinte (2017/18) como titular quase que indiscutível. Contudo, suas atuações em jogos importantes não foram das melhores, e ele acabou indo para o banco de reservas. Depois de algumas pequenas lesões, ele voltou a ser titular, mas ainda sem convencer. Vale relembrar que o Hamburgo passava pela maior crise de sua história.

Alternando entre titular e reserva, Walace nunca conseguiu se firmar no pior time da história do Hamburgo. (Foto: Fox Sports)

Na antemão do jogo contra o Hertha Berlim, na casa do Hamburgo, o então treinador da equipe, Christian Titz, o colocou para treinar de zagueiro. E foi aí que tudo começou. Walace se recusou a jogar na zaga e ficou de fora da relação do jogo. O jogador, então, pegou suas coisas e foi pra casa. Só que o contrato prevê que, mesmo sem estar relacionado, o jogador é obrigado a ir no estádio apoiar seus companheiros. Acabou que ele não foi, e então foi colocado para treinar com a equipe sub-21.

Tudo estava se encaminhando para o seu retorno ao time principal na semana seguinte, mas ele faltou o treinamento do time mais jovem e viajou para Milão sem avisar ninguém. A versão da assessoria do jogador é que ele não sabia que tinha treino. Na sua visão, estava de folga. Conclusão: Walace foi afastado da equipe por tempo indeterminado e ficou de fora do restante daquela temporada. O Hamburgo, que nunca havia caído para a segunda divisão do campeonato local em sua história, foi rebaixado e a permanência do volante se tornou quase nula.

No meio do ano de 2018, ele recebeu ofertas de clubes brasileiros, como Atlético-MG e Flamengo, que buscavam contar com o seu futebol por empréstimo. No entanto, o Hamburgo travou as negociações afirmando que só o venderia. Na ocasião, o técnico do time na época, o técnico Markus Gisdol, explicou que o jogador não vinha sendo utilizado constantemente por “não estar fisicamente em suas melhores condições” e porque, segundo ele, “não estava com a cabeça 100% no clube”.

Em sua segunda transferência, Walace foi adquirido pelo Hannover, em junho, numa negociação que girou em torno de 6 milhões de euros (R$ 26,3 milhões), valor inferior ao que foi pago pelo próprio Hamburgo dois anos antes. (Foto: Divulgação/Hannover 96)

No início da temporada 2018/19 pelo Hannover, Walace era titular. Apesar dos últimos anos com quantidade de jogos abaixo do normal, um problema disciplinar e um rebaixamento pelo Hamburgo, Tite disse ao convocá-lo que ele vivia um bom momento. Curiosamente, o Hannover não venceu nenhum dos quatro jogos no campeonato antes da convocação, e o volante de 24 anos nem atuou tão bem assim. Apesar disso, ao explicar a escolha, voltou ao passado com a camisa do Grêmio, há praticamente dois anos. “O momento dele é bom, porém, o passado de Grêmio e Seleção Olímpica credenciam pelo conjunto da obra”.

Na época, o brasileiro recebeu elogios até do presidente da equipe, Martin Kind: “Walace é um grande personagem. É por isso que ainda estou confuso por causa de tantas irritações em Hamburgo. Ele é sempre simpático, entende bem o alemão, está sempre aberto para conversar. Walace é uma super transferência para o Hannover 96”. Além disse, o ex-treinador da equipe, André Breitenreiter, também o elogiou. “Ele é um jogador muito diferente do que em Hamburgo”.

Agora, o tom das declarações mudaram. Em 6 de março deste ano, o presidente do clube falou ao portal alemão, Sportbuzzer, sobre uma possível grande venda do jogador brasileiro: “Com jogadores como Walace, não precisamos planejar”.  Isso porque, além dele possuir uma cláusula de rescisão de 30 milhões de euros, no período quando aconteceu essa declaração, Walace — ao lado da equipe como um todo — já vinha em má fase e começou a figurar entre os reservas.

Com a chegada do novo treinador Thomas Doll, em janeiro deste ano, Walace perdeu prestígio e voltou a estar em declínio na carreira. (Foto: Florian Petrov/Sportbuzzer)

A relação entre Thomas Doll e o jogador nunca foi das melhores. A explicação para isso foi que, antes da chegada do treinador alemão de 53 anos, o brasileiro dificilmente deixava de atuar em uma partida. Depois, com o tempo, foi para o banco e de lá não saiu mais. A gota d’água para a ruptura do elo entre dois aconteceu antes da derrota para o Wolfsburg. No treino que antecedeu o jogo, o treinador lhe deu um colete que, na teoria, seria para o time reserva e o brasileiro não aceitou. Então, Walace não apareceu na relação do jogo e a explicação oficial do clube foi que houveram “razões esportivas” para tal.

Em mais um caso de indisciplina por um clube alemão, a carreira europeia do brasileiro parece estar em queda livre. Sem o mínimo de profissionalismo, agora parece que haverá uma segunda chance dentro do clube, tanto que na última partida pela Bundesliga, quando o Hannover enfrentou o Borussia Mönchengladbach, ele esteve ao menos no banco de reservas. Pensando no longo prazo, qual clube europeu se interessará por um jogador que teve problemas disciplinares por dois clubes diferentes em sequência? Pior que existe: segundo o jornal alemão Bild, ele está na lista de desejos para a próxima janela de transferências do Benfica.

Próximo do seu segundo rebaixamento em dois anos, Walace precisa rever muitas atitudes, principalmente fora de campo. No atual momento do futebol, não há espaço para jogador mimado. É claro que existem casos e mais casos, mas quando o jogador não corresponde em campo e mesmo assim exige a titularidade, fica difícil defender. Se ainda deseja ter sucesso em escala europeia, o volante de 24 anos precisa mostrar bons sinais com seriedade ao seu futuro, além de entender que as vezes é preciso regredir para progredir.