Chegou a hora de Götze mostrar a que veio
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Chegou a hora de Götze mostrar a que veio

Início de temporada junto a abertura da janela de transferências é uma das partes mais interessantes de se acompanhar, principalmente quando a mesma tem contratações ao menos peculiares e bombásticas. Como era de se esperar, o Borussia Dortmund abriu os cofres com as perdas dos seus principais pilares e, curiosamente, trouxe de volta Mario Götze. O antigo menino que faltou com ética ao negociar uma saída às vésperas do jogo mais importante da temporada 2012-13, culminando no título do Bayern de Munique, se transformou no maior culpado e, cá entre nós, com uma pequena dose de razão.

Amadurecido com mais idade e bagagem, o desejo de retornar ao antigo clube foi algo que chamou bastante atenção. Enquanto haviam especulações sobre sua volta, viu a Muralha Amarela jorrar críticas e se voltar totalmente contra sua contratação. E, mesmo assim, Mario quis retornar e largou benefícios que poderia ter em vários outros clubes mais poderosos. A vontade de, eventualmente, se sentir em casa no Dortmund – diferentemente do que em Munique – vale reiterar que é aceitável.

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A saída de Mkhitaryan foi fundamental para cativar os dirigentes e quem sabe até mesmo Götze em um possível retorno. (Foto: soccer.nbcsports.com)

2013

Final de Champions League contra o Bayern de Munique, seu principal emergente rival e, até então, o camisa 10, tido como uma das grandes revelações alemães do século, é anunciado como reforço daquele mesmo time que enfrentaria em semanas. Contundido – ou para a maioria uma “suposta” contusão -, revelado pelas categorias de base do clube e em extrema ascensão em conjunto ao time, apunhalou a Muralha Amarela com essa notícia que chocaria o mundo. Mal sabia ele que logo seria um tiro no próprio pé.

2014

Autor do gol do título mundial da Alemanha na Copa do Mundo de 2014, diante da Argentina. Seria a concretização perfeita para o camisa 19 demonstrar seu valor principalmente a Pep Guardiola. Bastidores inicialmente conturbados por performances abaixo do que podia, sua titularidade de incontestável em Dortmund se tornou um verdadeiro ponto de interrogação na Baviera.

2016

Ancelotti assume e, o que poderia finalmente ser a salvação, se tornou o contrário: descartado pelo técnico, sua saída era muito provável, para não dizer completamente certa. Liverpool sondava, parecia ser o destino mais adequado, visto que Jürgen Klopp comanda a equipe inglesa e foi com ele que o jogador alcançou seu melhor e talentoso futebol.

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Jornais ingleses ventilaram um suposto pedido de Klopp para a contratação de Götze logo em seu primeiro ano no comando dos Reds. (Foto: empireofthekop.com)

Talvez, Mario amadureceu com tempo e fez com que ele tomasse a decisão mais complicada de sua vida: retornar a sua verdadeira casa. A coragem demonstrada em ter a chance de se redimir e encarar toda uma torcida contra foi ao menos surpreendente. Götze poderia ganhar mais na Premier League ou tentar convencer Carlo Ancelotti de que tinha condições de continuar entre os bávaros, consequentemente, teria mais valor financeiro, ponto apontado pelos aurinegros como um dos fundamentais em sua ida para Bayern de Munique.

Diminuiu consideravelmente seu salário pelo desejo de provar seu talento, retornar para onde foi criado e conquistou dois bicampeonatos alemães em 2010/11 e 2011/12. A imprensa alemã aponta que a transferência custou por volta de € 27 milhões (R$ 96 milhões). Preço bem abaixo do que foi vendido em 2013: € 37 milhões (R$ 132 milhões). Essa é a razão pela qual o Bayern de Munique estava desesperado para se livrar de Götze e, por isso também, o Borussia Dortmund foi capaz de assinar com ele por muitos milhões a menos do que o preço pelo qual o vendeu.

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Extremamente promissor, Mario perdeu seu caminho e teve de começar novamente a partir do zero, pelo menos na relação com os torcedores. (Foto: AFP)

O Borussia Dortmund perdeu seu principal assistente da temporada passada: Henrikh Mkhitaryan. E, para piorar mais ainda, İlkay Gündoğan foi seduzido por Pep Guardiola e partiu para Manchester. Mario Götze foi contratado para substituir ambas as perdas: pode atuar pela ponta, caindo pelo meio, ou meio campista central, mais adiantado como rendeu mais na primeira passagem por Dortmund. Centralizado mais recuado no esquema preterido por Thomas Tuchel, encaixa no espaço deixado por Gündoğan e pretende centralizar as criações passando por seus pés.

Nove jogos se passaram, 645 minutos jogados, 1 gol e uma assistência (ambos na Champions League). Ainda é muito pouco demonstrado na teoria pelo camisa 10 aurinegro, mas Götze vem mantendo frequentes boas atuações quando é titular. Enquanto termina a maioria dos jogos pela Mannschaft, no Dortmund, o caminho é totalmente o inverso: ou é substituído na maioria dos jogos em que iniciou como titular, ou é colocado em campo apenas no segundo tempo.

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O maior ápice de seu retorno até o momento foi o gol na abertura do placar e na estreia do Dortmund contra o Légia Varsóvia. (Foto: globoesporte.globo.com)

Götze saiu aiu como uma mercadoria de peso, voltou danificado e, agora, espera retornar ao seu valor verdadeiro de mercado: o menino de ouro em meio à desconfiança da torcida. Quando apresentado à mesma, esteve entre o céu de aplausos e o inferno de vaias. A partir desse momento, deu para perceber que apresentações convincentes poderiam pelo menos ajudar a esquecer o que foi feito no passado – e ele garante não ter se arrependido: “Três anos depois, com 24 anos, eu vejo com diferentes olhos esta decisão. Posso entender bem o que muitos fãs podem não ter entendido na minha escolha. Nem eu mesmo a teria tomado hoje”.

Vale a pena ressaltar também o quão racional foi a diretoria aurinegra, visto que depois de saídas conturbadas de alguns pilares da equipe no vice-campeonato alemão da temporada passada, a contratação veio conjunta as faltas de opções no mercado presumido por Hans-Joachim Watzke e Michael Zorc. Mesmo que sua antiga decisão tenha sido por sua vontade, a direção ter assumiu uma cláusula contratual em um jogador em ascensão tão visado. Os mais radicais tiveram sentido em cobrar dos atuais então mandas-chuvas.

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“Estou, pessoalmente, muito feliz que Mario tenha decidido voltar ao Borussia Dortmund. Desde sua partida em 2013, sempre esperei que ele um dia voltaria para nós” disse o diretor geral do clube, Hans-Joachim Watzke.

Seja como for, Götze foi contratado esperando que volte a ser o que era há anos, conhecido por decidir jogos, chamar a responsabilidade e botar a bola de baixo do braço. Atualmente, não chega nem perto do que pode oferecer, talvez pelo principal problema ser, até agora, ele ser visto como o substituto de Mkhitaryan e não como Mario Götze. De menino prodígio a Judas e novamente em busca de ser o jovem com mais potencial dos últimos tempos.

O início de recomeço perfeito não foi possível e isso até é aceitável tendo em vista a adaptação a uma equipe mais jovem, desentrosada e com muitos lesionados. Talvez seja o melhor momento para o camisa 10 assumir a responsabilidade sobre o elenco e fazer valer o investimento empregado. Mario merece uma segunda chance desde que demonstre, dentro de campo, o verdadeiro menino prodígio que já foi um dia. Atualmente, a tão falada mercadoria ainda não foi utilizada corretamente. Pelo menos, não por enquanto.

TEXTO PUBLICADO NO ENDSPIEL