A surra inglesa na Champions League escancarou a dura e ultrapassada realidade de clubes alemães
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A surra inglesa na Champions League escancarou a dura e ultrapassada realidade de clubes alemães

Há não muito tempo, a Bundesliga era conhecida por ser a principal liga no quesito tática, visto que conseguia unir — ignorando a briga pelo topo da competição — a competitividade em praticamente todas as partes da tabela. Agora, ainda que atualmente exista um duelo mais acirrado pela salva de prata, a competição estagnou. Sob um olhar mais crítico, pode até se dizer que regrediu em diversos aspectos, principalmente na comparação do poderio financeiro com equipes de outros países.

Para medida de coerência, o ranking de coeficientes de clubes da UEFA evidencia bem o que a Alemanha se tornou nos últimos anos. Apesar de estar próxima (em pontos) da Itália e não muito longe da Inglaterra, é provável que, até o final da atual temporada, essa diferença aumente ainda mais, afinal restam poucas equipes alemãs participando de competições europeias. Na temporada passada, o país germânico chegou a estar atrás de Rússia e França, além de, por pouco, não ter sido ultrapassado por Portugal. Ou seja: não é de hoje que a liga alemã desce a ladeira.

Nas oitavas de final da Champions League, três equipes alemãs enfrentaram três equipes inglesas. Era o cenário perfeito para que o mundo voltasse a respeitar uma liga que, ainda nesta década, chegou a emplacar um Der Klassiker na final da principal competição da Europa. Não foi o caso. Se contabilizar o agregado, os ingleses venceram por 17 a 3 os alemães, demonstrando estarem anos-luz a frente de uma liga que já foi bem vista mundialmente.

A final da Champions League da temporada 2012/2013 talvez tenha sido o ápice do futebol alemão no século. Porém, de lá pra cá, as coisas só pioraram. (Foto: Laurence Griffiths/Getty Images)

Pela primeira vez desde 2006, nenhum clube alemão se classificou para as quartas de final da Champions League. Naquela temporada (05/06), tanto Bayern de Munique quanto Werder Bremen foram eliminados nas oitavas de final, respectivamente por Milan e Juventus. Já a badalada Premier League, ao contrário da “rival”, conseguiu colocar quatro times (Tottenham, Manchester United, Manchester City e Liverpool) nas quartas da competição pela primeira vez desde a temporada 08/09. Por incrível que pareça, a diferença não está só nos números. É muito maior do que tudo isso.

Um dos motivos para explicar o fortalecimento do Campeonato Inglês nos últimos anos se deve à divisão do dinheiro na Premier League proveniente dos direitos de transmissão. A repartição mais igualitária fortaleceu a liga como um todo e evitou uma grande desigualdade financeira entre os clubes do campeonato (algo que acontece explicitamente na Bundesliga). E essa é a principal diferença.

Presa no passado, a regra “50+1”, que historicamente permitiu a competição crescer de modo sustentável e com a participação efetiva do povo alemão, atualmente mais atrapalha do que ajuda. Criada há 21 anos, ela fez com que os clubes se convertessem em companhias de natureza pública ou privada, desde que mantivessem direito de voto majoritário (ou 51%). Ou seja: ela que impede que um investidor único possua a maioria do capital de uma equipe. Diferentemente da Inglaterra, onde o capital estrangeiro sustenta quase que 100% das equipes, na Alemanha, a cultura de clubes é tradicionalmente de associação, sendo geridos, em sua maioria, pelos sócios ou empresas locais.

Motivo de orgulho para muitos torcedores, a regra dos 50+1, por mais que existam exceções (Bayer Leverkusen, Hoffenheim e Wolfsburg) atrasa a evolução de um futebol mais financeiro e globalizado. (Foto: Getty Images/Divulgação)

Na Premier League, desde 2012/13 — precisamente o ano em que o Bayern começou o seu domínio que já consolidou seis títulos — sagraram-se campeões quatro clubes diferentes, sendo que somente o Manchester City e o Chelsea conquistaram o título duas vezes nesse intervalo de tempo. Contudo, não houve (até o momento) nenhum time capaz de conquistar o bicampeonato em sequência. Isso evidencia uma maior igualdade dentro e fora de campo, fortalecendo a liga e consequentemente os times que a disputam. Com o acréscimo do investimento financeiro em grandes treinadores como Guardiola, Klopp, Pochettino e entre outros, era questão de tempo para que, o que antes era somente entretenimento com competitividade, agora pode ser denominada como a principal liga do planeta. O sucesso da Liga Inglesa na atual edição da Champions League, assim como o fracasso da Liga Alemã, não é por acaso. É planejamento e foco no sucesso.

Por mais que a Bundesliga preserve os valores importantes para as cidades e os seus habitantes de cada clube, o futebol, como um todo, já deixou de ser isso há muito tempo. Basta ver como se tornou um ciclo vicioso entre as más campanhas nos torneios da UEFA e a falta de interesse estrangeiro no campeonato nacional. Entretanto, a marca mais “raiz” não pode ser jogada fora. Até por isso, a manutenção da regra “50+1”, mesmo que os clubes ainda não tenham concordado, passou a ser extremamente necessária para, ao menos, buscar evitar vexames como o atual.

Ainda assim, é injusto demonizar apenas o lado financeiro e tirar a culpa de diretorias que entram em competições com o pensamento de “participar por participar”. Essa é a pior equipe do Bayern na década, um dos piores times do Schalke 04 de sua história e um Borussia Dortmund com elenco enxuto e priorizando acabar com a dinastia bávara na liga local — embora esteja mais valente do que em temporadas passadas, ainda é fraco mentalmente para esse tipo de competição. Tudo isso enfrentando, respectivamente, um forte Liverpool em extrema ascensão, provavelmente o melhor Manchester City de sua história e o Tottenham de Pochettino que dispensa elogios. Logo, o fracasso alemão já era esperado. Não da maneira que foi, mas era.