A saúde mental no cenário eletro-musical deveria ser mais valorizada

O ramo da música como um todo, com a sua recente modernidade, passou a possuir a indústria e o comércio como o grande e principal foco. A partir disso, alguns problemas que antigamente possuíam menos repercussão, passaram a ter maior importância midiática. Sequência de turnês, horários apertados, constante troca de fuso horário e momentos de solidão podem ser os ingredientes perfeitos para ocasionar a depressão ou vícios variados, além do esgotamento mental.

Desde o suicídio de Avicii, a saúde mental tem sido discutida com mais frequência no cenário eletrônico musical. Ainda assim, o assunto continua estigmatizado, e, às vezes, chega a ser ignorado por muitos. Vincular suicídios com DJs se tornou, infelizmente, cada vez mais normal. E isso está longe de ser culpa somente da profissão. Empresários, fotógrafos, agentes de booking, public relation e qualquer outro profissional que atue no cenário possuem suas respectivas parcelas de culpa.

A forma como a indústria musical se tornou uma máquina voraz capitalista precisa ser mais estudada e menos responsabilizada. Neste mês, uma pesquisa realizada com 1.500 músicos feita por uma plataforma de distribuição digital, Record Union, constatou que 73% dos participantes sofrem de alguma doença mental, especialmente com idades entre 18 e 25 anos. As doenças mais citadas são depressão e ansiedade, além de ataques de pânico. Ademais, menos de 40% afirmaram terem buscado por ajuda profissional, enquanto mais de 50% revelou se automedicar e fazer uso de álcool e drogas para amenizar os sintomas. Somente 19% das pessoas disseram ter apoio dentro da indústria musical.

“Todo mundo conhece Avicii, mas poucas pessoas conhecem Tim”, disse Levan Tsikurishvili, diretor do documentário “Avicii: True Stories”, fazendo alusão a confusão que era a vida do DJ sueco: da euforia inebriante de seus shows a cama de um hospital (Foto: Reprodução/Instagram)

Para sintetizar o quão grave — do ponto de vista da saúde — se tornou a profissão de DJ, a fundação Mental Health, da Inglaterra, afirma que 1 a cada 4 profissionais (em tour) vai sofrer com algum problema de saúde mental na vida. No caso, existem vários elementos que justificam e contribuem para o esgotamento mental e emocional. A “Síndrome do Burnout” que, de acordo com o Dr. Drauzio Varella, é “um distúrbio psíquico caracterizado pelo estado de tensão emocional e estresse provocados por condições de trabalho desgastantes”, se tornou cada vez mais comum no ramo. Para a antiga revista Only The Beat, Laidback Luke, experiente DJ filipino, admitiu: “já tive a Síndrome do Burnout duas vezes na vida. Às vezes, a única coisa que eu queria durante as crises era gritar…”.

Saúde mental não é brincadeira, e muitos profissionais da música eletrônica tem começado a perceber isso. Recentemente, Hardwell, um dos principais nomes do âmbito, decidiu abandonar por tempo indeterminado, alegando não conseguir lidar mais com a pressão. Há mais tempo “parado” que o holandês, Calvin Harris, referência em produção eletro-musical, também decidiu diminuir a quantidade estratosférica de shows. Mas não existem apenas esses casos mais famosos.

“Eu tinha vontade de desistir da música, mas eu conseguia enxergar que na realidade não era eu que queria parar de fazer música, e sim essa energia negativa tentando assumir o controle. A música sempre foi minha paixão. Nunca quis fazer nada no mundo, apenas música. A única coisa que me impediu era o fato de que eu simplesmente não conseguia fazê-lo. Não consegui acessar minha energia de criatividade e foi o que me impediu”, disse o famoso DJ holandês, Nicky Romero, em uma entrevista à revista Billboard em 2015.

“A mais profunda solidão é aquela que você sente quando cercado por pessoas amorosas. A tristeza mais forte é a que você sente em torno de pessoas cheias de alegria.” Estas foram as primeiras palavras de Paavo Siljamäki, do Above & Beyond, na postagem “You are not alone” (“Você não está sozinho”), compartilhada pelo Instagram do trio. “Estou me recuperando do meu segundo caso de esgotamento mental”, escreveu. “Por um lado, eu fui levado a isso pela forma como eu funciono; por outro, devido às pressões de artista, vida pessoal e familiar e a traumas do passado”.

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You Are Not Alone. Text & Photo @paavoab

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Em uma nota postada no dia 10 de outubro de 2018, Joel Zimmerman, o DJ Deadmau5, motivado após comentários considerados homofóbicos e transfóbicos feitos por ele a outro colega de profissão, decidiu abrir o jogo sobre tudo que envolvia sua carreira pessoal e profissional. “Este tem sido um período bem difícil e eu peço desculpas sinceras pelos meus comentários que eram completamente ofensivos e eu assumo total responsabilidade por eles. Agora é hora de lidar com meus problemas pessoais, inclusive, finalmente abordar meus desafios de saúde mental, com os quais lutei contra pelos últimos anos”.

Por trás de muita dança, alegria e energia dos grandes clubes, os artistas passam por situações de muita solidão e questionamento. Falta de privacidade, despersonalização, ausência de desafios e uma acentuada exposição midiática são as causas principais para tais sintomas. Mas, como para todo problema existe uma solução, entidades estão buscando ajudar no que for possível para evitar casos extremos no cenário. Já em 2017, a organização britânica Help Musicians, que tem trabalhado para fornecer assistência em saúde mental e educação para artistas e profissionais do setor musical, lançou oficialmente seus serviços 24 horas por dia e sete dias por semana. O sistema Music Mind Matters fornece assistência gratuita, aconselhamento e terapia, com todo suporte necessário que possam vir a precisar.

O grupo também elaborou uma colaboração com a Associação de Música Eletrônica (AFEM), chegando a publicar um espantoso relatório sobre saúde mental na indústria musical, indicando que 71,1% dos participantes acreditavam ter sofrido ataques de pânico ou ansiedade, 68,5% disseram ter lidado com depressão e 55% achavam que faltavam meios para ajudar artistas nessas questões.

A família de Avicii também está engaja nessa causa. Quando a morte do DJ sueco completou um ano, foi criada a “Tim Bergling Foundation”. Focando em saúde mental, a ONG será mais uma maneira de honrar sua memória e continuar o seu legado, assim como trabalhará para ajudar pessoas com depressão e doenças psicológicas similares. “O Tim queria fazer a diferença”, diz o comunicado da família. “Começar uma fundação em seu nome é a nossa forma de honrar a sua memória e de continuar a agir em seu espírito”.

Em parceria com a Pioneer DJ, o vlog DJsounds lançou, em 2017, o documentário “Why We DJ — Slaves To The Rhythm”, que mostra o lado da vida de DJ que muitos não enxergam (Foto: Reprodução/YouTube)

Apesar de existir diversos casos em extrema luta para que problemas de saúde no cenário possam ser evitados, e nitidamente já ter evoluído em relação a casos passados, a repercussão sobre o assunto é praticamente nula. Precisou um grande nome sofrer na pele o que poderia ter sido evitado para que o assunto voltasse a tona. Não é e não deve ser assim. Quantos mais vão precisar morrer pela ganância de uma indústria que pouco se importa pela saúde de quem nela atua?

No entanto, não há somente um único culpado. Ainda que sejam vítimas a maior parte do tempo, os próprios DJs também possuem suas parcelas de responsabilidade. Acima de tudo, é preciso que o artista trate a sua saúde como um importante ativo comercial. A conscientização sobre os malefícios do estilo de vida pesado e da falta de descanso pode ser fundamental a fazer com que consigam conciliar o trabalho com medidas que diminuam o estresse, como maiores intervalos e maior tempo para o sono.

Já passou da hora de quebrar o tabu e a saúde mental ser tratada com mais ênfase por todos os profissionais envolvidos no cenário eletro-musical. Tem de se acabar com a banalidade sobre a subestimação dessa questão. O lado introvertido de muitos artistas, em contraponto a uma carreira agitada e ao estereótipo do DJ como uma pessoa altamente sociável e extrovertida, também precisa ser desfeito. De qualquer maneira, o mais lamentável disso tudo é que realmente só vai mudar quando a saúde for prioridade ao invés do dinheiro. Ou seja, nunca.

About Bruno Povoleri

Cursando Comunicação Social e apaixonado pelo futebol alemão. Games, Vasco da Gama e Borussia Dortmund.