A demissão de Jorginho escancara problemas conhecidos não só no Vasco
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A demissão de Jorginho escancara problemas conhecidos não só no Vasco

O mundo vem vivenciando várias modificações no desenvolvimento do trabalho em todas as áreas de atuação. Atualmente, não basta somente o conhecimento adquirido em experiência no ramo ou no curso de formação técnica para assegurar a ocupação de um profissional em determinada empresa e, muito menos, sua permanência durante alguns anos. O planejamento e gestão de carreira podem ser aperfeiçoados a partir da necessidade do desenvolvimento de competências, habilidades e comportamentos apropriados, levando o indivíduo a obedecer as primordialidades impostas pelo mercado de trabalho. No Brasil e não só no futebol, não é diferente.

Não chegar na decisão do Campeonato Estadual, tomar goleada do maior rival, não se classificar para a Libertadores e outras causas cada vez mais banais, são justificações para demitir-se treinadores no Brasil. Claro que mundo a fora também acontece — e devemos evitar o eurocentrismo, mas a proporção em questão é incomparável. Segundo estudo realizado pela UEFA em 2016, o Brasil foi o sexto país que mais demitiu técnicos no mundo e talvez isso demonstre um problema muito mais grave do que se imagine. A quantidade de treinadores dispensados indica a (falta de) maturidade do mercado.

Lista dos clubes que mais trocaram de técnicos no século XXI (Fonte: R7 — ATUALIZADO 15/08):

• Flamengo (40 trocas, 27 técnicos)
Vasco (38 trocas, 25 técnicos)
• Fluminense (35 trocas, 25 técnicos)
• Internacional (32 trocas, 24 técnicos)
• Atlético-MG (32 trocas, 23 técnicos)
• Botafogo (31 trocas, 30 técnicos)
• Palmeiras (29 trocas, 26 técnicos)
• Santos (26 trocas, 21 técnicos)
• Cruzeiro (25 trocas, 21 técnicos)
• Corinthians (25 trocas, 19 técnicos)
• Grêmio (24 trocas, 21 técnicos)
• São Paulo (23 trocas, 19 técnicos)

A pressão pelo resultado instantâneo a curto prazo, o apego a treinadores com currículo de peso e o pensamento arcaico de pular etapas são alguns dos “motivos” de muitos dirigentes do futebol brasileiro. Com a moda do interino, em que se promove um treinador na maioria das vezes jovem e sem pretensão de pressão pelo resultado imediato, abafou — mesmo que relativamente pouco, a necessidade de contratar a todo instante um novo treinador.

Após 15 dias no comando do Ceará, Jorginho pediu desligamento do clube alegando problemas pessoais. Dias depois, assumiu o Vasco. (Foto: Israel Simonton/cearasc.com)

O treinador estreou no Vasco há cerca de um mês. Desde então foram apenas dez partidas, sendo quatro vitórias, um empate e cinco derrotas (aproveitamento de 43%). Jorginho deixa o Vasco eliminado da Copa Sul-Americana e da Copa do Brasil, além de ter assumido o time na 11ª colocação na tabela do Campeonato Brasileiro e o entrega em 15º com 19 pontos, a apenas um da zona de rebaixamento, mas com dois jogos a menos que os concorrentes.

Mesmo após ter treinado o time na pausa da Copa do Mundo, Jorginho nunca conseguiu emplacar uma sequência positiva no comando da equipe cruz-maltina. 8 ou 80, possivelmente seu maior erro foi não ter corrigido os altos e baixos constantes durante uma partida, além de ter sofrido 16 gols em 10 jogos — marca do Vasco no ano. Apesar de boas atuações em determinados tempos dos jogos, a falta de concentração dos jogadores e constantes erros defensivos foram cruciais para o desligamento do treinador.

Pior do que demiti-lo, foi ter contratado. Jorginho não tinha competência e muito menos merecimento de ter uma nova chance no Vasco. (Foto: Paulo Fernandes/Vasco/divulgação)

Amparado pelo sucesso no passado com a conquista invicta do Campeonato Carioca de 2016 e pela bela campanha no segundo turno do Campeonato Brasileiro, mesmo rebaixado, foi mantido na dianteira cruz-maltina para a disputa da Série B. Apesar de bom início no começo, terminou a competição com atuações próximas do ridículo e somente na última rodada consolidou o acesso a Série A. Da forma como terminou, não tinha mais clima para Jorginho no clube e muito menos um retorno 2 anos depois.

Baseado no padrão do ponto de vista de curto prazo, a diretoria vascaína parece ter se arrependido da contratação do ex-treinador do Ceará — e com razão. Alegar fatores pessoais para desligar-se de uma função independentemente da profissão que seja, e mesmo não sabendo a razão para tal, aceitar num curto espaço de tempo um cargo de maior renome é no mínimo mau-caratismo. A tese de que ser treinador de futebol é algo perigoso acaba sendo totalmente derrubada com atitudes como essa. Imoral? Ilegal? Não sei. Inconveniente, com certeza. Não que isso tenha sido o motivo para o desligamento do até então treinador do Vasco, mas foi merecido.

Proveniente da cultura demissional de técnicos no Brasil, a cada nova partida ficava mais notório que seria questão de tempo a queda de Jorginho. (Foto: Rafael Ribeiro/Vasco.com.br)

Em tempos tão conturbados em que treinadores pedem mais tempo de trabalho, mais leis de proteção contra demissões, limite para transferências, reconhecimento internacional da licença brasileira e uma maior valorização da classe no país, Jorginho atestou a pior característica dos profissionais da área: a falta de ética. É muito cômodo intitular-se a fama de coitadinho e na primeira oportunidade de assumir uma proposta mais vantajosa, profissionalmente e financeiramente, não pensa duas vezes. Acaba que a própria desvalorização da classe começa pelos mesmos que pedem a implementação de medidas para diminuir o número de demissões nos clubes do país.

Pressionado pela torcida com a visível sensação de um time que não evoluía e nem conquistava resultados, a fama de segundo clube do Brasil que mais demite treinadores no século XXI dava indícios de que Jorginho seria mais uma vítima das estatísticas. Em seu primeiro jogo em São Januário — mesmo vencendo, a torcida cruz-maltina em alguns momentos entoava cantos de “BURRO, BURRO, BURRO”. Errado ou não, era perceptível o erro da diretoria em todas as vertentes em contratá-lo. Quiçá, consideraram que estavam admitindo a versão Jorginho treinador do segundo turno do Brasileirão pelo Vasco e, na realidade, era o Jorginho que fez um trabalho esdrúxulo pelo Bahia e pediu desligamento do cargo de outro clube há 15 dias de serviço por alegar supostos problemas pessoais.

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